A escola pública onde cantar e dançar é parte da rotina

by • 31 de março de 2013 • América do Sul, Espaços de Aprendizado, inspiração, Jornada, PessoasComments (3)5296

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As “Escolas Experimentais” (Escuelas Experimentales) não seguem fórmulas prontas. Essa rede argentina conta com 38 escolas públicas, cada uma com 100 a 200 estudantes. Na semana passada, visitamos cinco instituições da rede, localizadas em Ushuaia, ao sul da Argentina, uma cidade com 60 mil habitantes, montanhas imensas e bastante frio – num dos dias da nossa visita, a temperatura atingiu a mínima de 1°C.

As origens dessa rede de escolas remonta à década de 60, quando uma professora aposentada começou uma oficina artística com ex-alunos na sua casa. A oficina se transformou numa escola e, em 1984, depois do fim da ditadura argentina, o Ministério da Educação do país propôs que a experiência se desenvolvesse em âmbito estatal.

Há inúmeras características que diferenciam as Escolas Experimentais dos colégios tradicionais. Já falamos um pouco sobre isso aqui, agora mencionarei apenas um dos pontos-chave: a importância da arte.

As aulas terminam com um momento compartilhado, no qual todos os alunos e professores se reúnem para comer, cantar e dançar. Eles se sentam em roda e, logo que se acomodam, fazem silêncio. É como se aquela parte do dia ganhasse um significado potencializado devido ao silêncio que a precede. A ausência de barulho é um sinal de respeito ao momento, respeito ao outro, respeito a si mesmo. Logo depois dos instantes sem nenhum ruído, pão e chá são servidos, mas ninguém começa a comer antes que todos estejam com seus pães e copos na mão. Imagine a cena: mais de cem pessoas, entre crianças, jovens e adultos, esperando que todos sejam servidos, uns olhando para os outros com uma paciência e uma atenção raras. Quem serve cada uma das pessoas geralmente são crianças – sim, os estudantes também ajudam na realização das tarefas diárias da escola, inclusive recolhem cada uma das canecas sujas e as levam à cozinha. Depois que o lanche é comido, geralmente um professor começa a tocar violão e a cantar músicas tradicionais, conhecidas como romances e baladas.

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“Caballito blanco, / ven prontito aquí, / llévame a la tierra / donde yo nací.”

Há trechos memoráveis nessas rodas finais: o entusiasmo das crianças expresso nos olhares, a música sendo cantada pela maioria das pessoas, a dança que começa no centro da roda… Este momento que marca o final das aulas todos os dias é uma maneira de os alunos se despedirem da escola, pois é durante a dança que os pais aparecem para buscar seus filhos. E tais rodas representam apenas uma das abordagens que a escola encontrou para inserir a arte no dia a dia – comentarei outras práticas num post futuro.

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Nelly Pearson, uma das educadoras argentinas que ajudou a resgatar as músicas que hoje são cantadas nas Escolas Experimentais. Segundo ela, essas canções são “tesouros vivos, transmitidos de geração em geração, através dos séculos, pelo simples processo de se incorporar aos cantos de outros, não como aprendizado, mas como vivência”.

As músicas cantadas mencionam mitos e contos tradicionais de povos antigos. Parte das canções estão disponíveis no link abaixo, cantadas por Nelly Pearson, uma senhora de 80 anos que participou da fase inicial das Escolas Experimentais e hoje trabalha ativamente em uma dessas instituições, numa área periférica da cidade de La Plata. (As canções estão sob licença Creative Commons, então você pode reproduzi-las onde quiser, desde que cite a fonte.)

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3 Responses to A escola pública onde cantar e dançar é parte da rotina

  1. Estou descobrindo, aos poucos, o blog e me encantando. Realmente sensibilizado por esse movimento realizado por vocês, trazendo a discussão, a inspiração, a reflexão em torno de escolas diferenciadas em suas práticas e visões educacionais. Ouço as músicas e me enterneço. Sem palavras!

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