Como vai a sua segunda-feira ?

by • 4 de novembro de 2012 • Brasil, inspiração, UncategorizedComments (2)3963

Exatamente 483 alunos passaram por minhas classes de pós-graduação na disciplina “Gestão da Sustentabilidade” num Centro Universitário em Santos, litoral de São Paulo.

Estes alunos, em sua maioria jovens entre 23 e 27 anos de idade vinham dos mais diversos cursos : Direito, Gestão Portuária, Administração de Empresas, Engenharia, Publicidade e Propaganda, Nutrição, Pedagogia, entre outros.

Praticamente em todas as turmas eu colocava uma pergunta bastante simples logo na primeira aula : “Quem está aqui porque está de fato com muita vontade de estar aqui?”.

Será que você que está lendo este post consegue imaginar quantas mãos se levantavam ou quantos se manifestavam afirmando estar ali com muita vontade de estar ali?

Qual o proposito da educacao ?

Carla e André do www.educ-acao.com com provocações no vão do MASP neste sábado 03.11.12

Cabe ressaltar que minhas aulas estavam colocadas no período noturno e a maioria ali tinha passado por um longo dia de trabalho antes de chegar até aquela classe.

Bem, será que você diria que 50% dos alunos estavam ali com vontade de estar ali ? Talvez 70% ? Ou ainda para os mais pessimistas, 30%?

Talvez a resposta seja ainda um pouco diferente das expectativas. No total, destes 483 alunos, cerca de 20 levantaram a mão dizendo estar ali felizes e com vontade. Tinham escolhido fazer uma pós-graduação para se atualizarem e continuar estudando, tinham se debruçado sobre o currículo oferecido para ver se gostariam das matérias e finalmente decidido se matricular.

Mas por que 463 alunos e alunas estavam ali sentados numa classe as 19h (para ficar até as 22.30h)?

Obviamente, esta proporção sempre me chocou e as respostas eram muito parecidas :

“ Porque hoje o mercado demanda pós-graduação, então tenho que fazer.”

“Porque meu chefe me disse que este era um jeito de conseguir uma promoção.”

“Porque meu amigo me falou que com pós-graduação eu podia ser promovido e ganhar mais grana.”

“Porque aí fora é uma guerra, então preciso me atualizar.”

Ninguém fala de sonhos ? Ninguém diz : “porque é exatamente isso que eu quero fazer na vida!” ?

O que está acontecendo?

Além do desinteresse pelas aulas e a falta de propósito em frequentar (por exemplo) um curso de pós-graduação, o ensino superior brasileiro vem enfrentando índices em torno de 20% de evasão. Por experiência própria, tendo trabalhado no ensino superior privado brasileiro por quase 10 anos posso pelo menos dizer que parte deste número se deve a “problemas financeiros”, mas existe também uma boa parte com causas totalmente diversas e não completamente mapeadas.

Mas voltemos aos 463 alunos. Nem todos concluíram o curso. Alguns, simplesmente “desapareceram”. Talvez por não encontrarem ali algo que alimentasse seus sonhos, ou simplesmente por não se sentirem conectados com o tema.

Um executivo de RH brasileiro escreveu um artigo intitulado “o apagão de talentos” onde se referia à dificuldade de empresas encontrarem profissionais à altura de suas demandas e supondo o desaparecimento de novos talentos nas empresas.

Eu, particularmente, tenho uma visão bastante diferente da deste executivo. Acredito que nunca antes, o mundo teve tantos jovens talentosos e o que estamos vivendo é uma falta de atratividade das carreiras tradicionais para jovens com perfis tão ousados e diferentes.

Hoje, é inegável que nossa hiper-conectividade é capaz de trazer informação como nunca antes na história deste planeta. Alguns dos mais jovens com quem converso querem ser poetas mas também arquitetos e também advogados (tudo ao mesmo tempo), ou ainda sonham (e fazem acontecer) projetos que não necessariamente dependem de uma formação acadêmica.

Mas, vamos voltar à pergunta inicial que eu coloquei lá no título: como vai a sua segunda-feira?

Normalmente, nas segundas, redes sociais, e-mails corporativos, são inundados com mensagens de repúdio a este dia da semana (digitando segunda-feira no google pictures em várias línguas diferentes e você tem resultados parecidos).

digite MONDAY no Google Pictures !

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Eu também sou um destes que amava só as sextas-feiras e os finais de semana, e que literalmente odiava as segundas-feiras. E também fui de certa forma matriculado no ensino superior porque este era simplesmente “o caminho natural das coisas”.

Filho de uma família “não rica”, meus pais sempre me incentivaram a buscar meus sonhos, fazer a faculdade que eu quisesse (mas diziam que era bom fazer). Meu bom senso porém, me dizia que eu não seria sustentado pelos meus pais pelo resto da vida, então, na época de minha escolha por uma faculdade, apesar de gostar muito de temas ligados ao meio ambiente acabei passando no vestibular, cursando 7 longos – e na sua maioria sofridos anos (longa história) – e me formando como Engenheiro Mecânico na Faculdade de Engenharia Industrial, ou talvez…me deformando engenheiro mecânico – isto é só uma questão de perspectiva.

Para mim, era bastante óbvio nesta época que tínhamos que trabalhar duro, mesmo em coisas que não gostávamos, para poder aproveitar bem o final de semana e…as merecidas férias. Juntar um dinheirinho e então finalmente depois de 35 anos neste ritmo, desfrutar de uma “honrosa” aposentadoria lá pelos 60 anos de idade.

Tive uma ótima carreira de mais de 10 anos como engenheiro. Me esforcei muito, vivi fora do Brasil por alguns anos, recebia um bom salário, mas tudo isso era muito carregado de esforço e pouquíssimo prazer.

Minhas segundas-feiras eram um inferno. Já no final do domingo eu estava deprimido.

Um vídeo recente da BOX1824, intitulado “All Work And Play” traz esta reflexão num formato bastante divertido e atual sobre trabalho,diversão e a geração de “millenials”, e certamente perguntas bastante provocadoras: o que você está fazendo exatamente agora? É algo que você realmente ama?

Mas minhas questões não sossegam por aí :

“Como fazemos nossas escolhas?”

“Como aumentar nosso cardápio de escolhas?”

“Pode nosso sistema educacional atual, vir ao encontro de sonhos pessoais, ou seriam os sonhos pessoais que deveriam buscar vazão não necessariamente dentro de uma universidade?”

“Preciso mesmo de uma universidade para me fazer feliz ? Se sim, qual?”

“Por que em geral os perfis do FACEBOOK são tão diferentes do LINKEDiN mesmo se tratando da mesma pessoa?”

200 estudantes da Kansas State University criaram um vídeo-manifesto intitulado : A vision of students today (obrigado pelas legendas Fabio Ueno). O vídeo, recheado de informações no mínimo curiosas mostra obviamente a visão de estudantes de uma universidade nos Estados Unidos.

“Se fosse feito no Brasil seria diferente?”

Pra terminar, posso dizer que já tive centenas de segundas-feiras ruins mas hoje, algumas dezenas de anos depois de ter nascido, finalmente encontrei dois temas que fazem a grande maioria de meus dias (inclusive as segundas) serem brilhantes e divertidos (educ-ação e desenvolvimento sustentável).

Escrever para este BLOG, cercado de gente que admiro muito é literalmente estar fazendo meu sonho acontecer.

“Se suas escolhas não são direcionadas para fazer seus sonhos acontecerem, então para onde elas o levarão?”

Boa segunda-feira ! Boa semana !

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2 Responses to Como vai a sua segunda-feira ?

  1. Edgar Mascarenhas disse:

    Shima-San,

    Gostei muito do tema e do tom que você deu ao texto – por vezes a coisa tem de ser autobiográfica mesmo, até porquê trata-se de um blog afinal de contas.

    Em especial, no que diz respeito à questão do “apagão de talentos” eu atribuo tal situação à uma “miopia” recorrente na maioria das organizações, que nada mais são do que uma extensão cruel da prática e currículos assíncronos da academia.

    Como é possível identificar talentos se todo o DNA da organização é pautado por formatos pré-estabelecidos que privilegiam mais o “efeito halo” (aura de competência emanada por um indivíduo por meio de sinais codificados, aparentes e reconhecíveis de uma pretensa qualidade de conteúdo – tudo em função da forma) do que a “centelha divina” de cada um?

    Digo mais – quantos profissionais “de carreira” seniores dentro das organizações, (geralmente os responsáveis pela fase final dos processos de seleção) são maduros e altruístas o suficiente para integrar a sua equipe com um novo autêntico talento, sem temer por seus próprios empregos?
    Em suma, a identificação de talentos é o talento que anda mais em falta. Tem gente movida por impulsos muito pobres e mesquinhos por trás dessa máquina, tanto nas universidades quanto nas organizações.

    O ideal seria sempre que nossos trabalhos fossem a intersecção equilibrada entre o que entendemos como realização, satisfação, contentamento e conforto – todavia na dificuldade de instalação dessa utopia (e nós precisamos disso pra viver!), eu voto pela identificação das nossas paixões, vocação, carreira e quem sabe até caridade, naquilo que estamos fazendo… Parte do motivo pelo qual sou seu fã passa pelo fato de que você fez e continua fazendo isso – que baita respeito por si mesmo você tem, meu amigo. Não tenha dúvidas que é isso que te faz tão respeitável e respeitador aos olhos do “outro” com quem você troca, seja ele quem for.

    Tem muito mais para se falar a respeito desse assunto, mas vamos deixar isso para um “bate papo presencial”, que é muito melhor.

    Um grande e fraterno abraço.

    Namastê!

  2. Tuane N. disse:

    Ao ler o texto, não tenho como dizer que não me deu aquele aperto no coração. Muitas coisas me motivam, coisas relacionadas a “mudar o mundo” como eu digo. As pessoas riem de mim porque penso em utopias, mas acho que a mudança começa daí.
    Não me imagino sentada em uma sala com ar condicionado o dia todo administrando o financeiro de empresas (exatamente o que faço hoje), parace que a cada dia um pouquinho de mim se atola mais… Penso que qlq dia eu vou cair estatelada no chão de tanta inércia.
    Infelizmente hj ainda o mercado procura por pessoas que saem da linha de produção da faculdade, a maior parte com os mesmos pensamento e atitudes.
    Tenho medo as vezes de passar a vida e chegar nos 60 anos e ter, obrigada, que curtir uma aposentadoria enquanto penso que não fiz o que amei…
    Isso foi mais um desabafo, mas queria que mais pessoas pudesse sentir isso e realmente mudar o mundo.
    Parabéns pelo texto! Me emocionou. De verdade.

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