Educar na sustentabilidade…

by • 21 de outubro de 2012 • Asia, Espaços de Aprendizado, inspiração, Jornada, Oceania, UncategorizedComments (6)5231

No dia 10/10/10 as 10:00h da manhã, eu estava tomando café da manhã com o Prof.José Pacheco. Obviamente, isso não era mais uma coincidência.

Comigo,mais algumas pessoas que faziam parte de um grupo que se intitula “Românticos Conspiradores”. Naquela manhã obviamente, o assunto era educação, não podia ser diferente.

Ao final do encontro, perguntei ao professor, como uma universidade poderia educar para a sustentabilidade.

Sem pensar nem um segundo, Prof.Pacheco me disse : “Não e possível educar para a sustentabilidade, só se pode educar na sustentabilidade”.

Esta simples frase mudaria para sempre meu modo de ver a educação.

Algum tempo se passou e aqui estou eu junto com Carla Mayumi na Indonésia, para conversar com professores,alunos,pais de alunos, sobre esta escola mítica, totalmente construída de bambu, no coração da ilha de Bali.

Passei 5 dias na Green School. Durante todos estes dias eu acordei bem cedo, atravessei uma maravilhosa ponte e literalmente passei o dia conversando e observando.

Não vi a palavra “sustentabilidade” ou “desenvolvimento sustentável” escrita em nenhum lugar. Aqui não se fala. Se faz.

Quando perguntei ao professor responsável pelo plano pedagógico : “Com quem posso falar sobre as iniciativas de sustentabilidade da escola ?”

Ele parou, pensou e disse : “Não sei. Talvez com o fundador da escola. Isto sempre esteve aí.”

Nada mais de “núcleos de sustentabilidade” ou “departamentos responsáveis”. A Green School respira sustentabilidade e pulsa sustentabilidade.

Agora, escrevendo este texto penso “tem tanta coisa,por onde começar ?”

Imerso no estudo sobre desenvolvimento sustentável e aprendendo que praticamente tudo o que vemos sobre o tema é puro green washing a Green School me deixou chocado. Não vou aqui falar de Global Reporting Initiative, Global Compact. Pretendo ir a níveis mais sutis e talvez, verdadeiros.

Começamos pela própria construção, praticamente toda feita de bambu, material abundante e renovável nesta região do planeta. Para os que lêem este post e não vêem as imagens, vem logo a mente uma imagem tosca de construções adaptadas de bambu. Bem, nada disso, a escola respira design e é absolutamente linda. Durante estes dias foi comum ver turistas que chegavam e olhavam dentro do “Coração da Escola” e ficavam absolutamente boquiabertos.

Green School - uma escola construida praticamente toda de bambu

Green School – uma escola construida praticamente toda de bambu

Além da construção, hoje, a escola já é capaz de sustentar 80% da energia que consome através da captação de energia solar. O único prédio que tem ar condicionado (embora o calor quase constante que flutua em torno dos 30 graus Celsius e 70% de umidade) é o pequeno quiosque do caixa eletrônico. Toda a energia que alimenta o caixa e seu sistema de refrigeração tem origem na luz do sol.

As maravilhosas salas de aula tem brisa e luz natural, sem falar no som das cigarras, pássaros, sapos e todos os habitantes da floresta do seu entorno.

Mas a ousadia não para por aí. Um vórtex que desvia uma pequena parte do rio (nada de diques,barragens ou algo assim) equipado com uma turbina horizontal está em fase de desenvolvimento para que mais energia renovável seja gerada.

O vortex que desvia uma pequena parte da água do rio Ayung para gerar energia por uma turbina horizontal

O vortex que desvia uma pequena parte da água do rio Ayung para gerar energia por uma turbina horizontal

Vale dizer também que no grupo de implantação desta tecnologia, vários pais de alunos estão presentes. Envolver a família em atividades na escola é algo absolutamente natural e necessário para se construir uma comunidade sinérgica de aprendizado.

Saindo um pouco da questão energética e indo para a alimentação, quase toda a fantástica comida (feita com muito carinho por uma cozinheira local) é plantada localmente dentro do campus da escola, além disso, seguindo a tradição, a comida é servida sobre folhas de bananeira, levando a zero o impacto gerado com lixo não biodegradável. Fast-food, nem pensar. O buffet tem todos os dias versões ocidentais e locais, mas nada de enlatados, congelados e importados. A comida, é local.

A criação de animais e o cultivo de vegetais é também parte da sala de aula. É bastante comum ver crianças perambulando pelo galinheiro,colhendo frutas ou vegetais e correndo pela floresta. Mesmo as aulas de matemática, drama, artes, tem sempre ação e inspiração no meio ambiente do campus.

Na Green School, o campus é comestível !

Na Green School, o campus é comestível !

A equipe de funcionários da escola e composta de mais de 130 pessoas entre eles professores, jardineiros, cozinheiros, equipe de manutenção.

Uma grande parte desta equipe é contratada localmente. Nas salas de aula, professores indonésios e também de várias partes do mundo se revezam ou até mesmo se complementam dentro de uma mesma classe (que conta com mais de um professor simultaneamente).

As aulas são em inglês, para atender a comunidade internacional que frequenta a escola, mas o bahasa, idioma local também faz parte do aprendizado.

Os banheiros que às vezes assustam os visitantes, tem dois vasos sanitários, um para líquidos e outro para sólidos. Neste segundo caso, nada de água, folhas secas dão conta do recado e preparam o início do processo de compostagem.

Sempre que se pensa em “sustentabilidade” ou “desenvolvimento sustentável” não há como escapar de uma análise da cadeia de valor (de onde vem, para onde vai, quem são os envolvidos), além de tentar pensar em três dimensões como coloca John Elkington : social, ambiental e econômico.

A escola que sobrevive totalmente das mensalidades e doações que recebe, tem por objetivo ter 20% dos alunos locais com subsídio de até 100%. Hoje, tem menos de 10% e se esforça para fechar a conta. Mensalidades por aqui custam em torno de US$ 1.000,00 por mês.

O currículo da escola também é um exemplo de visão sistêmica. Aulas temáticas, currículo flexível que muda a cada 5 semanas, aprendizado focado sempre nas dimensões sociais/emocionais, sinestésicas, intelectuais e espirituais simultaneamente dão o tom. As “caixinhas” por aqui, se é que existem, pelo menos se conectam e se comunicam de forma bastante harmoniosa e complementar.

Nas entrevistas que Carla Mayumi conduziu com alunos e alunas de várias séries diferentes, parece que de fato a escola entrega aquilo a que se propõe. Todos adoram as aulas e manifestam claramente a sensação de aprendizado e troca. “Depois que vim pra cá me tornei mais inteligente” diz o garoto filho de mãe sul-coreana e pai canadense.

Ouvimos uma outra aluna asiática que disse claramente em sua entrevista que o maior aprendizado que teve foi perceber que “todos são iguais, não há distinção de classe, cor ou religião”.

Obviamente a Green School nao é perfeita. Teve altos e baixos durante sua existência.

Mas é preciso pensar que a escola tem 5 anos de vida e está aprendendo a caminhar, mas para nós que visitamos e vivemos a experiência por esta semana, acredito que o maior elogio a ser feito é dizer que certamente matricularíamos nossos filhos e filhas por aqui.

Aliás são muito comuns as histórias de pais que deixaram tudo para trás somente pela chance de ter seus filhos fazendo parte desta comunidade.

Posso dizer que a Green School é uma das raríssimas escolas que conheço onde o “educar na sustentabilidade” parece de fato acontecer.

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6 Responses to Educar na sustentabilidade…

  1. Fernando Spacassassi disse:

    Muito emocionante e inspirador, creio que a força mais contagiosa é o exemplo. Estou refletindo muito sobre a questão e sinto uma energia especial me movimento agora.

    Parabéns.

  2. Fernando Spacassassi disse:

    Muito emocionante e inspirador, creio que a força mais contagiosa é o exemplo. Estou refletindo muito sobre a questão e sinto uma energia especial me movimento agora.

    Parabéns.

  3. Leila Garcia disse:

    Embora tenha ficado realmente emocionada com a Green School, não posso deixar de dizer o quanto é injusta essa relação dinheiro e boa escola. Pouquíssimas pessoas podem pagar uma quantia dessa para que o filho possa ter uma experiência tão incrível!De novo prevalece a lógica do capitalismo, E isso não acontece só na Green School! Em São Paulo, por exemplo, escolas que não chegam aos pés da Green School, chegam a custar $2..000,00 por mês! As mensalidades giram em torno de $1.300,00! No final, as escolas razoáveis, são apenas para uma elite que tem dinheiro.será mesmo que é possível dizer que essa é uma outra educação? Leila Garcia

  4. edushima disse:

    Oi Leila !! Obrigado pelo comentário !
    Sem dúvida este ponto é importantíssimo e bastante polêmico.
    Nossas escolhas vão mostrar que existem TAMBÉM no mundo algumas iniciativas de “educação de ponta” que são absolutamente gratuitas, ou ainda em que a renda familiar (extremamente baixa) é o critério principal de entrada.
    Particularmente eu entendo e respeito o caso da Green School.
    Já trabalhei um bom tempo com administração de instituições de ensino privadas e posso te dizer que ter professores de qualidade e estrutura de qualidade custa muito caro se o dinheiro não vem das mensalidades, não vejo como equilibrar isto.
    De qualquer forma, acredito que isso é um belo debate. Países onde educação é prioridade geralmente oferecem excelentes oportunidades gratuitas (vide o caso da Team Academy na Finlândia por exemplo).
    Mais uma vez, obrigado.
    Eduardo Shimahara (SHIMA)

  5. edushima disse:

    Oi Leila !! Obrigado pelo comentário !
    Sem dúvida este ponto é importantíssimo e bastante polêmico.
    Nossas escolhas vão mostrar que existem TAMBÉM no mundo algumas iniciativas de “educação de ponta” que são absolutamente gratuitas, ou ainda em que a renda familiar (extremamente baixa) é o critério principal de entrada.
    Particularmente eu entendo e respeito o caso da Green School.
    Já trabalhei um bom tempo com administração de instituições de ensino privadas e posso te dizer que ter professores de qualidade e estrutura de qualidade custa muito caro se o dinheiro não vem das mensalidades, não vejo como equilibrar isto.
    De qualquer forma, acredito que isso é um belo debate. Países onde educação é prioridade geralmente oferecem excelentes oportunidades gratuitas (vide o caso da Team Academy na Finlândia por exemplo).
    Mais uma vez, obrigado.
    Eduardo Shimahara (SHIMA)

  6. […] e a criatividade – temos falado sobre isso em vários dos posts anteriores, como aqui e aqui. Mas também há outro fator-chave que vale ser salientado: a maneira como essas instituições […]

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