Educ-ação http://educ-acao.com Uma jornada em busca de inspiração Fri, 05 May 2017 18:06:55 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.3.11 Download gratuito do livro Around the world in 14 schools / Free download of the book Around the world in 14 schools http://educ-acao.com/free_download/ http://educ-acao.com/free_download/#comments Mon, 24 Apr 2017 14:45:57 +0000 http://educ-acao.com/?p=2580 Screen Shot 2017-04-24 at 11.52.10

A pesquisa que resultou nas palavras do Volta ao mundo em 13 escolas aconteceu entre 2012-2013. Quando o livro nasceu, em 2013, nasceu também uma transbordante alegria ao constatarmos que as histórias narradas aqui foram abrindo novas portas e caminhos nos pensamentos e práticas de muitas pessoas. O livro veio ao mundo em português, então desde o lançamento perdurou uma inquietação sobre realizarmos uma tradução para o inglês, para vermos essas palavras alcançando novos voos. Esta versão em inglês é também uma maneira de compartilhar com as escolas que visitamos pelo mundo as histórias que narramos sobre elas e, assim, agradecê-las por generosamente nos receberem e contarem suas práticas.

As histórias que vocês vão ler nas próximas páginas são os retratos que fotografamos entre 2012-2013. Preferimos não fazer atualizações para manter o ritmo de contação das histórias das escolas, encontradas com nosso olhar de curiosos, que descobria os espaços pela primeira vez. E há uma surpresa: uma nova escola visitada na Índia, o Barefoot College.

Entrem nessas páginas como se perambulassem numa viagem. Não uma viagem no tempo, mas sim uma andança por possibilidades, invenções de espaços e processos que têm força suficiente para nos encantar e estimular que sigamos com movimentos cheios de sentido e potência.

Para fazer o download gratuito da versão integral do livro, clique aqui
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The book “Around the world in 14 schools” is the result of a research conducted in several schools & educational spaces, in the years of 2012 and 2013.

When we launched our journey as a book, in 2013, we felt an overflowing joy as we noticed that the stories about each school, were opening “new doors” and mindsets, when it came to think about new perspectives and actions in education.

The book was initially written in Portuguese and since its launch Coletivo Educ-ação has been eagerly wanting an English version, to spread these stories in other territories and cultures. This English version of the book, is also a way of sharing with the 13 visited spaces, the stories we have told about them.

Even though, some years have passed by, it is still a way of thanking them for generously having us around and sharing their practices and daily routine with us.

The stories you are about to read, is a series of “portraits” we made in 2012 and 2013. We know that most schools are “living organizations”, that change and evolve throughout time. Even though, we preferred not to keep the storytelling rhythm of  the schools, registered by our curious glimpses of first-time visitors, instead of updating each chapter.

Probably some people have gone, others have arrived. Some processes have changed, but still, we consider the stories valid and extremely inspiring.

Lastly, a surprise: we have a new chapter, with a 14th school – Barefoot College, from India – in the English version of our book! We hope you enjoy it!

We invite you to read our book, as if you wandering on a trip. Don’t think of it as a journey through time, but as a walk through isles of possibilities, inventions of spaces and processes that are strong enough to enchant and stimulate us, to carry on living in a flow filled up with meaning and potency.

Click here to download the entire book
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Revisitando o YIP – Youth Initiative Program – em Järna/Suecia http://educ-acao.com/revisitando-o-yip-youth-initiative-program-em-jarnasuecia/ http://educ-acao.com/revisitando-o-yip-youth-initiative-program-em-jarnasuecia/#comments Sun, 23 Nov 2014 21:23:36 +0000 http://educ-acao.com/?p=2557 Depois de mais ou menos uma hora a partir de Stockholm, chegamos a YtterJarna.se um pequeno vilarejo que tem sua história iniciada na década de 30. O local, hoje conta com a arquitetura premiada de Erik Asmussen que tem base antroposófica e é absolutamente recheado de arte, pequenas fazendas biodinâmicas, cafés, espaços para eventos, casas e uma escola Waldorf. Ali, Reimbert me deixa num pequeno restaurante onde jovens entre 18 e 26 anos de idade, vindos de mais de 15 países diferentes, aguardam ansiosos.

Cada um destes jovens tem um brilho diferente, algo muito difícil de explicar. Cada um é absolutamente diferente do outro, seja na forma de se vestir ou se expressar. Uma amiga da Holanda há alguns anos atrás tinha me dito que havia encontrado um lugar diferente na Suécia, algo absolutamente especial que era como uma fusão entre a “Vila dos Hobbits” e a “Escola de alunos do Professor Xavier de X-Men”. Chegando ao YiP – International Youth Initiative Program – eu tive a certeza de que esta era a melhor descrição do lugar.

Um encontro comunitário no YiP onde alunos discutem temas de seu dia-a-dia vivendo juntos na mesma casa.

Um encontro comunitário no YiP onde alunos discutem temas de seu dia-a-dia vivendo juntos na mesma casa.

 

A receita é bastante simples: juntar jovens absolutamente brilhantes, cada um em seu jeito de ser  + coloca-los para viver juntos ao longo de 40 semanas + para cada uma destas semanas trazer “contribuidores” absolutamente apaixonados pelo que fazem para compartilharem suas idéias com os Yippies + fazê-los participarem de um estágio em algum país que não conheçam + colocar estes jovens para criar um projeto individual qualquer mas que envolva “fazer” algo (ou “ter a iniciativa”) e cerca-los de um campus absolutamente inspirador como o caso do YtterJärna. E acima de tudo, entrelaçar entre estes diversos pontos um senso de espaço, local e comunidade.

 

Conheço diversos ex-yippies que estão espalhados pelo mundo. Ediane no Brasil, Matthew na Inglaterra, Henning na Suécia, Nathan, Didi e Zuhayra na África do Sul e posso dizer que são absolutamente inspiradores e realizadores. Sempre conectados com temas dos mais diversos trabalhando na fronteira da inovação.

 

O Järna Kafe onde os Yippies almoçam

O Järna Kafe onde os Yippies almoçam

 

O YiP sempre esteve no meu imaginário. Desde a descrição trazida pela amiga Holandesa até as histórias contadas pelo amigo André Gravatá no nosso livro “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, mas, em Novembro deste ano recebi um email. Um dos fundadores me convidava a visitar o YiP, como contribuidor, levando minha história pessoal e paixão por temas como comida, teoria da complexidade e educação. Daquela primeira conversa até a chegada no YiP algumas intensas semanas nas montanhas do oeste do Nepal e também passando pelo Butão haviam se passado e quando Reimbert me deixou ali naquela reunião de jovens do mundo todo. Em poucos minutos eu estava em casa.

O mar Báltico que também é parte do Campus no YiP

O mar Báltico que também é parte do Campus no YiP

 

Duas Yippies foram voluntarias para me receber e ter certeza de que eu ficaria bem, além de me apresentar o campus e também os outros colegas de classe. Louise (Bélgica) e Veerle (Holanda) pareciam me conhecer há muito tempo e aos poucos fui me conectando com o local e com os demais Yippies além do incrível time que organiza a jornada.

Christianne, que faz parte da equipe organizadora este ano, foi a host que esteve comigo durante todos os momentos na sala da Casa Branca, principal local para os módulos realizados pelos “contribuidores”. O papel de Christianne é simples e vital: Entrelaçar os diversos temas, contribuidores e yippies.

O dia-a-dia na semana tem as manhãs dedicadas aos contribuidores e seus temas, com um intervalo para o tradicional fika (tradição Sueca facilmente reconhecida pelo Brasileiro – o cafezinho), o almoço comunitário no Järna Kafe onde toda a equipe de organização está presente e aproveita o momento para conversar com os yippies. Durante o almoço é muito comum os jovens marcarem conversas pessoais com os contribuidores. Ali, dividem suas dúvidas e reflexões mais profundas numa conversa olho no olho, ou seria melhor dizer, alma na alma.

A imersão para "dentro" acontece aproveitando o inverno Sueco

A imersão para “dentro” acontece aproveitando o inverno Sueco

A limpeza e organização dos espaços de almoço e jantar também é uma tarefa do grupo que se organiza em turnos para os diversos trabalhos.

Na parte da tarde, o grupo se reúne para tarefas diversas que podem ser um encontro comunitário para discutir a realização de um evento ou ainda conversas para ajustar questões práticas do convívio juntos na casa “Tallevana”. Nesta semana porém, a quinta-feira guardava algo especial: um encontro de “skill sharing” onde dois ou três dos jovens assumem o papel de contribuidores e dividem com a classe alguns de seus talentos. Isso pode envolver aulas de matemática ou ainda imersões em neurologia ou malabarismo. Mas não se engane. Quando o jovem Pablo (México) assume a classe para falar de neurotransmissores e neuro estimulantes, ele não está nervoso nem hesitante, fala com segurança e responde com clareza as diferentes perguntas trazidas sobre o tema que vem estudando por iniciativa própria.

O rigoroso inverno Sueco com cerca de 6 horas de penumbra por dia, é utilizado para que os participantes tenham uma imersão mais profunda dentro de si mesmos, é o período para escreverem autobiografias, pintarem auto retratos ou ainda enfrentarem seus medos e dúvidas. Por outro lado, o verão quando o Sol brilha por quase 20 horas, é usado para que seus projetos pessoais tomem corpo.

Quando me lembro das fantásticas discussões do nosso coletivo para fazer as duras escolhas sobre quais escolas deveriam estar presentes no nosso livro e quais ficariam “de fora”, o YiP nunca foi um “talvez” e esta visita só me confirmou que de fato, acertamos. O vídeo “O que é o YiP?” dá uma boa idéia da energia do local e, além dele, fizemos um outro vídeo curto apenas juntando alguns segundos de cada um dos dias para se ter uma idéia da turma do YiP 7. Confira aqui.

 

 

 

 

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O que as crianças sentem e aprendem quando interagem em um espetáculo dança? http://educ-acao.com/o-que-as-criancas-sentem-e-aprendem-quando-interagem-em-um-espetaculo-danca/ http://educ-acao.com/o-que-as-criancas-sentem-e-aprendem-quando-interagem-em-um-espetaculo-danca/#comments Thu, 09 Oct 2014 10:59:39 +0000 http://educ-acao.com/?p=2541 Emilyn
Por Isabel Marques *

“As palavras apenas evocam as coisas. É aí que entra a dança. Eu não estou interessada em saber como as pessoas se movem, eu estou interessada no que as faz mover.” Com essas palavras, a artista Pina Bausch nos faz refletir sobre por que dançamos e o que sentimos quando nos movemos ou assistimos a um espetáculo de dança.

Desde 1996, o Caleidos Cia. de Dança, da qual eu sou diretora, tem construído uma trajetória híbrida entre a educação e a arte aqui em São Paulo. Em nossos trabalhos, o público não apenas vê dança, nós construímos um tipo de espetáculo no qual o público também aprende e cria dança. Também, desde 1996, trabalhamos com crianças da escola pública propondo espetáculos de dança contemporânea em que as crianças vivenciam a experiência de serem protagonistas da dança por meio da interatividade.

Ao longo dos anos, coletamos vários depoimentos dessas crianças que me fazem perceber o quanto esses espetáculos, especialmente pensados na interface arte/educação, são importantes para elas em vários aspectos – tanto emocionais quanto de aprendizagem.

Selecionei alguns depoimentos coletados ao longo dos anos e aqui os reordenamos a partir de duas perguntas: o que terão sentido as crianças ao fruir e participar dos espetáculos do Caleidos? O que terão aprendido as crianças com esses espetáculos?

O que as crianças sentiram: o fascínio da arte – “Eu senti um show dentro de mim” , “Me senti solto, livre e alegre”, “Senti emoção e alegria, amor”. Sentiram também a sensação de pertencimento que a arte proporciona: “Eu senti alegria de interagir com vocês e de interagir entre nós”, “Quando eu assisti, senti vontade de fazer” , “Me senti mais leve fazendo e assistindo”. Em suas falas e depoimentos, as crianças que participaram dos espetáculos sentiram a sensação de libertação que a arte proporciona ao dizerem, após as apresentações, que “É como se eu tivesse asas para voar”, “Eu me realizei hoje porque me senti uma bailarina…”. Ao longo dos anos, percebo o quanto a interação com o elenco do Caleidos Cia. afetou a vida cotidiana dessas crianças, duas delas declararam: “Foi o dia mais importante da minha semana”, “Eu senti no corpo o que podia fazer”.

Leituras - EMEI Papa Caleidos out 11 (27)

Além de sentir e perceber a dança em suas vidas, crianças também aprenderam novos movimentos: “Aprendi vários movimentos que achava que não era capaz”; novos olhares: “O que fiz aqui é arte. A dança mostra o corpo, a alma e o coração”, “Isso é dança cultural”, “Aprendemos outra forma de dançar”; e novas formas de relação: “Nós inventamos um jeito de dançar, lá fora a gente só copia”, “Vocês têm um jeito artístico de mostrar o dia a dia”, “Às vezes você quer ser o que você não é”, “As pessoas não se tocam como vocês tocam”, “Você começa a se ver na outra pessoa, ela [a dança] mostra como você é”.

Leituras - EMEI Papa Caleidos out 11 (86)

Desde 2011, juntamente com o Instituto Caleidos, a companhia desenvolve o projeto “Leituras da Dança” dando continuidade à apresentação de espetáculos interativos de dança para crianças da rede pública. Neste projeto, propomos que ações de fruição (circulação de espetáculo) e de educação sejam integradas entre si. Além de apresentação de espetáculo, realizamos cursos para professores e também seminários sobre a dança e seu ensino.

No projeto “Leituras da Dança”, processos de educação e arte são voltados para um mesmo objetivo – a formação de público, a integração entre cultura e educação, a ampliação do conhecimento em dança – e a transformação da própria escola.

Leituras - EMEI Papa Caleidos out 11 (111)

Este projeto está hoje na plataforma Catarse buscando apoio do público para que mais 2400 crianças possam desfrutar da dança na escola, sentirem, aprenderem e terem experiências semelhantes as que fizeram os depoimentos acima.

Contamos com a contribuição de todos para alcançarmos a meta desse projeto. Para conhecer mais e contribuir www.catarse.me/leiturasdadanca

* Isabel Marques é coreógrafa, diretora e professora de dança, escritora. Formada em Pedagogia pela USP, Mestre em Dança pelo Laban Centre for Movement and Dance, Londres (hoje Trinity Laban), doutora pela Faculdade de Educação da USP/96. Fundou e dirige o Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Criou e dirigiu Caleidos Arte e Ensino, em São Paulo (2001-2008). Atualmente, com Fábio Brazil, é diretora do Instituto Caleidos, fundado em 2007.

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Baixe o livro Volta ao mundo em 13 escolas http://educ-acao.com/baixe-o-livro-volta-ao-mundo-em-13-escolas/ http://educ-acao.com/baixe-o-livro-volta-ao-mundo-em-13-escolas/#comments Tue, 07 Oct 2014 21:41:51 +0000 http://educ-acao.com/?p=2535 {[clique na imagem e faça o download do livro]}volta ao mundo em 13 escolas

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Por onde começo a mudança? (Com uma missão para o leitor) http://educ-acao.com/porondecomeco/ http://educ-acao.com/porondecomeco/#comments Wed, 04 Dec 2013 18:11:27 +0000 http://educ-acao.com/?p=2514 2
Ontem liguei para uma professora que me marcou bastante. Na época em que estudei com ela, numa escola pública, suas aulas de português me chamaram atenção. Nesses encontros, entrei em contato com uma abundância de temas. Em vez de aprendermos apenas o conteúdo de livros didáticos, a professora levava seu computador e alguns CDs com edições de revistas de curiosidades. Ou seja, em parte das aulas, discutimos diversos temas, de Darwin a tecnologia.

Liguei para ela com um intuito principal: agradecer. Precisamos deixar claro para as pessoas que nos marcaram o quanto elas foram importantes, para que nunca menosprezem o impacto que podem ter na vida de alguém.

Conversando com minha professora, percebi que ela não se lembrava das aulas que mencionei com a mesma intensidade que eu. Falar com ela foi fundamental para, implicitamente, dar um recado: por favor, continue dando aulas criativas, você pode mudar para sempre a vida dos seus alunos.

A imagem acima, aliás, encontrei na sala da dona Êda, coordenadora do Cieja Campo Limpo. É um desenho que ela ganhou de uma aluna, um presente que fica exposto na sua sala e lhe dá ainda mais fôlego para continuar seu trabalho.

Para realmente mudarmos a educação atual, precisamos aprender a puxar o fio das ações que já podemos fazer agora, neste exato momento, para estimular o que há de melhor, para fertilizar os campos que estão sendo semeados. Aproveito e lanço aqui também o convite para que você procure o telefone ou e-mail de algum professor que o marcou, entre em contato e diga obrigado. Se você já faz isso com alguns professores que o marcaram, pense em outro, que talvez você tenha esquecido.

Aceita a missão?

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O encantamento com o fundamental http://educ-acao.com/o-encantamento-com-o-fundamental/ http://educ-acao.com/o-encantamento-com-o-fundamental/#comments Sat, 05 Oct 2013 10:53:49 +0000 http://educ-acao.com/?p=2327 acender fogueiras de curiosidade

Foto que tirei na Suécia, na época em que escrevi um post tão emocionado quanto este aqui

Agora há pouco, peguei uma fruta na cozinha. Uma ameixa. De tão suculenta, em segundos me vi apenas com o caroço na boca. E percebi, por acaso, que ele estava rachado. Abri o caroço com os dentes e me deparei com outro caroço dentro, o caroço do caroço.

Isso me fez pensar: a gente chega na essência das coisas por acaso?

Como saber se a gente esbarrou naquilo que há de mais fundamental?

Certos períodos da vida nos deixam assim, como que esbarrando nos caroços do mundo. Estou agora num desses instantes, muito permeável ao que acontece à minha volta, depois de uma maratona de dias e dias e semanas dormindo pouco e me dedicando bastante, ao lado de várias outras pessoas, para que o livro Volta ao mundo em 13 escolas seja compartilhado com o mundo da melhor forma possível que somos capazes de conceber hoje.

Agora, mordendo o caroço dentro do caroço da ameixa, me deparei com um gosto difícil de descrever, o mesmo gosto que senti visitando as escolas da jornada – o gosto do encantamento com a realidade.

Lembro que, a certa altura das viagens, quando estava na Suécia, escrevi um post bem breve no blog, ressaltando que instituições são feitas de pessoas e, por isso mesmo, no limite, não estamos falando de escolas, mas de histórias de vida, de gente que subverteu as dificuldades e cultivou tanto a si mesmo quanto os outros.

À época daquele post, estava emocionado, cheguei a chorar enquanto escrevia o texto. E agora, mais de um ano depois, a dois dias do fechamento do livro, me encontro encantado de novo com o mesmo elemento exposto no post – ou seja, encantado com as pessoas, e as disparadoras dessa comoção foram justamente as pessoas que dedicaram tantas horas para que esse livro fosse parido nas entranhas de um movimento que clama por uma educação diferente.

No exato instante perto do fim desta fase, percebo que acabei de tocar, de novo, o caroço do caroço deste processo. Acabei de tocar o que há de mais fundamental na nossa jornada: os encontros.

Quando valorizamos os encontros com as pessoas e, mais, com o mundo, um encantamento quase sublime nos arrebata, respingam sorrisos na boca, saltam arrepios na pele, espantos doces faíscam.

E do que é feita a educação senão da matéria dos encontros?

Ontem, relendo um livro do Paulo Freire, encontrei uma frase bem emblemática:

Se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode.

Penso que uma das algumas coisas fundamentais que a educação pode é resgatar o encantamento dos encontros, e sinto isso bem mais fortemente no final dessa jornada. Retomar o espanto e a contemplação atenta diante dos caroços dos caroços. E o encantamento não é deslumbre, vai além do verniz das coisas. Um encantamento genuíno não é ingênuo, é poético.

Como diz uma educadora que encontramos na jornada, a dona Maria Vilani, “meu maior objetivo é escrever um verso em cada vida que passa por mim”. Escrevendo versos uns nos outros, nos encantamos mutuamente, nos educamos interdependentemente.

Como não canso de repetir, obrigado a todos que compartilham dessa jornada. Nesse caso, aliás, a palavra obrigado é eufemismo. Por isso, criei uma palavra nova para exprimir melhor essa minha gratidão, à la Guimarães Rosa:

Obrigadimenso.

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Na reta final http://educ-acao.com/na-reta-final/ http://educ-acao.com/na-reta-final/#comments Mon, 09 Sep 2013 01:14:38 +0000 http://educ-acao.com/?p=2293 Imagem

Caligrafias da parte interna do livro

Pedimos uma licença poética para, em vez de contar sobre uma escola ou espaço visitado, dividir com vocês um pouco dos bastidores do Coletivo Educ-ação.

Estamos na reta final: o livro sai do forno no próximo mês de outubro.

Cada um dos capítulos já está escrito e agora estamos nos últimos momentos do “vai e vem” com a querida editora Lorena, da Prova 3, que tem recebido os nossos textos, revisado e ajustado, e nos devolvido para uma rodada de ajustes e refinamentos.

Parece que o relógio começa a bater mais rápido e a lista dos arremates finais continua extensa… Mas, como bem sabemos, tudo vai dar certo!

Apesar desta correria toda, os momentos com o Coletivo têm sempre proporcionado aprendizagens incríveis. Escrever um livro tem se mostrado um desafio constante no qual o famoso “aprender fazendo” continua a imperar a cada novo encontro!

Neste domingo, fizemos um “Mutirão do Educ-Ação” com os talentosos designers Alice Vasconcellos, Manoela Novais e Juliano Augusto, parceiros incríveis que estão nos ajudando a dar mais “cara” cor e vida à jornada em formato de livro!

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É hora de resumir palavras em imagens, traduzir vivências em formas e explorar as diferentes linguagens para que este livro seja um passaporte para inúmeras viagens pelos espaços visitados, para outras culturas, por reflexões diferentes e, principalmente, para outras muitas jornadas, inauguradas e continuadas por cada um de vocês que viajaram e viajam conosco.

Até breve!

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Luz que vem do Rajastão na India http://educ-acao.com/luz-que-vem-do-rajastao-na-india/ http://educ-acao.com/luz-que-vem-do-rajastao-na-india/#comments Sun, 01 Sep 2013 10:32:01 +0000 http://educ-acao.com/?p=2277 Esta foto foi tirada no mesmo local onde as crianças tem aula à noite mas sem o uso de flash.

Esta foto foi tirada no mesmo local onde as crianças tem aula à noite mas sem o uso de flash.

“…de dia eu cuido de 20 búfalos” diz a valente e jovem garota “e a noite eu venho para a escola noturna. E você? Que tipo de plantas cultiva? Quantas vacas você tem? Me pergunta, intrigada.” A foto que ilustra a capa deste post foi tirada com flash no momento em que as crianças se apresentavam. A garota que cuida de 20 búfalos durante o dia é a da direita. Aqui você vê uma foto sem flash tirada no mesmo local e na mesma hora.

A jovem garota de um minúsculo vilarejo no interior do estado do Rajastão na India, frequenta aulas extras durante as noites. Assim como ela, outras crianças que tem tarefas diárias que vão desde cuidar dos irmãos mais novos, ou até mesmo do rebanho de cabras da família, tem acesso a estas aulas que só são possíveis graças a iluminação providas por lâmpadas LED, que por sua vez recebem energia elétrica acumulada em baterias durante o dia através da captação da energia solar.

Aqui em Tilonia há pouco mais de 40 anos atrás em 1972 nascia uma das escolas mais empreendedoras do planeta, o Barefoot College, nome que pode ser traduzido como “Universidade dos pés descalços”.

Mulheres de mais de 10 países estão agora no Barefoot College participando de cursos com 6 meses de duração

Mulheres de mais de 10 países estão agora no Barefoot College participando de cursos com 6 meses de duração

Fundado por um corajoso e dedicado indiano que abriu mão de aproveitar o rico futuro que sua família poderia oferecer para dedicar seu tempo a um pequeno vilarejo, a escola conta hoje com dois campus e recebem principalmente mulheres analfabetas ou semi-analfabetas do mundo todo para transforma-las através de seus mais diversos programas.

Quando chegamos ao principal campus onde 100% da energia elétrica é captada através de painéis solares, fomos recebidos por Nandlal, um simpático indiano que se esforçava para falar inglês conosco enquanto ia nos guiando pelo campus. Chegamos a uma sala de projeção onde assistíamos um pequeno vídeo sobre a historia do projeto quando ele nos interrompe e diz “Venham agora, Bunker Roy quer falar com vocês!”

“Se você quer um diploma para pendurar na parede não terá isto no Barefoot College. Aqui, seu “certificado” é o serviço que você presta a comunidade” dispara Bunker Roy em sua famosa palestra no TED.com

Sentado em seu simples escritório Bunker pergunta bastante. Quer saber de onde viemos, quais nossos interesses ali e o que queremos aprender. Quer saber também o que sabemos, que línguas falamos para saber como podemos ajudar na escola. Ao saber que eu falava espanhol logo dispara “Sim, precisamos de espanhol, a TV espanhola vem nos visitar amanhã.” Ele faz as conexões rapidamente, é preciso, carismático e ao mesmo tempo bastante acessível. Oferece aos nossos colegas de expedição 4 vagas para que mulheres da África do Sul venham participar nos work shops de 6 meses. Depois de um delicioso chá com especiarias ele diz “Já conversamos bastante vocês devem ir para a escola noturna agora, vocês tem muito para ver, preparem-se para dormir pouco.”

A escola se dedica a realizar o impossível. Transformar aldeões analfabetos em engenheiros solares ou ate mesmo dentistas. Sim, isso mesmo. Ou como chamam por aqui : “barefoot solar engineers ou barefoot dentists”.

Algumas mulheres que se formaram no Barefoot College montaram a organização "The Women Barefoot Solar Cooker Engineers Society".

Algumas mulheres que se formaram no Barefoot College montaram a organização “The Women Barefoot Solar Cooker Engineers Society”.

A indiana de sorriso tímido aprendeu por dois anos o oficio de dentista e hoje, presta serviços a comunidade do entorno cobrando 15 rupias por um check up completo (aproximadamente R$0,45 – quarenta e cinco centavos de Real).

Mas o Barefoot College não pára por aí, ao todo, tem atuação em diversas áreas, com uma enorme abrangência em termos de cursos. É a única universidade no mundo dedicada e gerenciada por pobres – como eles mesmos gostam de dizer.

Seus cursos abrangem eletrificação, desmistificação e descentralização de energia solar, saúde preventiva e sistemas alternativos, artesanato e técnicas tradicionais, empoderamento de mulheres, comunicação em massa entre outros.

Durante nossa visita, mulheres de mais de 10 países diferentes se revezavam em seus work shops que fazem parte de sua imersão de 6 meses. Ao retornar para seus países, levam, além das amizades internacionais, conhecimento o suficiente para replicar aquilo que aprenderam. Muitas acabam se tornando lideres em suas comunidades, trazendo tecnologia solar para cozinhar, ou ate mesmo iluminar uma aula para crianças e certamente levam no coração uma comunidade muito maior.

São mulheres que farão a diferença em seus países, trazendo luz, em todos os sentidos da palavra, onde existe escuridão.

Conta uma lenda indiana que um rico Marajá queria decidir qual de seus dois filhos herdaria seu reino. Chamou os dois com idades entre 8 e 9 anos, deu a cada um uma moeda de 5 rupias e disse: “Comprem algo que preencha todo este quarto.” Depois de passarem o dia inteiro nas ruas, voltaram exaustos, já era noite. O primeiro garoto trouxe 10 kilos de algodão e por mais que se esforçasse não conseguiu preencher toda a sala. O segundo garoto entrou no quarto ja escuro pela noite que avançava e disse “eu comprei uma vela”. A luz da vela preencheu todo o quarto e o garoto herdou o reino.

Este post foi inteiramente escrito utilizando energia solar do campus e  o upload foi feito com wifi também fruto da mesma fonte de energia.

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Uma expedição ao interior da Índia http://educ-acao.com/uma-expedicao-ao-interior-da-india-2/ http://educ-acao.com/uma-expedicao-ao-interior-da-india-2/#comments Fri, 30 Aug 2013 05:28:54 +0000 http://educ-acao.com/?p=2254 Bem-vindos à India! Diz Luke Metelerkamp, natural do Zimbabwe, 28 anos. Luke é um daqueles cidadãos globais com passagens por diversos países do mundo.

Desta vez, ele esta recebendo um grupo de 9 alunos de 4 diferentes nacionalidades com idades que variam entre 22 e 50 anos para um programa de imersão na pequena (para os padrões do país) cidade de Wardha, na província de Maharastra, bem no coração da India.

Para chegar a Wardha, os alunos partiram da movimentada Mumbai na costa oeste Indiana e pegaram um trem onde passaram cerca de 14 horas. A cidade foi um dos locais onde Mahatma Gandhi viveu por mais de 20 anos e ainda é possível visitar o seu “ashram” e sua pequena cabana.

A Índia por si só já valeria a viagem. Para os que já conhecem, tem certamente uma dimensão das diferenças culturais e físicas. Para os que chegam ali pela primeira vez, percebem que a Índia não é apenas mais um país, mas, sim, um outro universo. Inúmeras camadas foram se sobrepondo ao longo dos anos e o país se tornou uma mistura absolutamente única que pode ser um paraíso para os que ali chegam dispostos a mergulhar e viver as diferenças, ou um grande choque para os que esperam os costumes, serviços e paisagens ocidentais.

O trânsito aparentemente caótico pode ser interpretado de outra forma. Com tantas motos, riquixas, carros, bicicletas, pessoas e vacas dividindo as mesmas ruas ao som absolutamente constante de buzinas (que aqui funcionam como uma forma de comunicação e não de pressão) é muito difícil ver qualquer tipo de acidente. O trânsito simplesmente flui de forma harmônica no aparente caos absoluto.

Luke é o fundador de uma iniciativa de imersão cultural e acadêmica que leva o nome de SI Explorers. O programa tem duas modalidades. Uma mais radical, que levará em 2014, 20 jovens entre 18 e 21 anos de idade de diversas nacionalidades para passarem 7 meses vivendo em 6 diferentes países, se aventurando por diferentes culturas e aprendendo num formato que, obviamente, não pode ser replicado dentro de uma sala de aula. Uma outra versão do programa, talvez mais tangível e possível para mais pessoas, são módulos que duram entre 2 a 3 semanas com temas específicos e que misturam imersão cultural e pesquisa acadêmica. Os módulos podem ser cursados em conjunto ou de forma isolada.

Desta vez, o educ-acao.com embarcou junto nesta jornada para viver um formato diferente de aprendizagem e de experiência.

O grupo reunido na casa de um pequeno agricultor que cultiva mais de 28 variedades em 1,5 hectares de terra usando técnicas tradicionais

O grupo reunido na casa de um pequeno agricultor, que cultiva mais de 28 variedades em 1,5 hectares de terra usando técnicas tradicionais

O tema que decidimos estudar com o SI Explorers foi “Food Systems and Globalized Agriculture” (“Sistemas de alimentação e a globalização da agricultura”) e para isso, passamos 14 dias imersos na fazenda experimental Dharamitra em Wardha. Fundada pelo PhD Tarak Kate, a fazenda tem como foco o resgate de técnicas tradicionais de agricultura (a Índia tem 6 mil anos de historia agrícola) e testes científicos de tais técnicas, como forma de se ampliar a difusão de tecnologias mais sustentáveis neste campo. Os estudos são conduzidos de forma a ouvir diversas perspectivas. Desde agricultores que defendem a “revolução verde” com a adição maciça de insumos químicos e sementes transgênicas, passando por outros agricultores que conseguem ser lucrativos usando apenas técnicas tradicionais aprendidas e transmitidas por dezenas de gerações.

Agricultores Indianos que resistem à modernização e utilizam o conhecimento de mais de 6.000 anos de história agrícola no país

Agricultores Indianos que resistem à modernização e utilizam o conhecimento de mais de 6 mil anos de história agrícola no país

A fazenda tem acomodações bastante simples, dignas de uma cidade rural no interior deste imenso país. Galpões dormitórios compartilhados por homens de um lado e mulheres de outro, além de banheiros indianos e banhos de balde com água fria. A imersão no dia a dia da fazenda, utilizando as técnicas aprendidas na teoria, envolveu o plantio de uma horta, além de exames de laboratório em amostras de solo.

A rotina do dia a dia se divide entre o trabalho na horta, a visita a produtores de pequena e grande escala, palestras com especialistas de diversas áreas ligadas a agricultura e também trabalho em grupo, além de muitas leituras de diferentes artigos temáticos.

O programa criado por Luke esta ligado ao Sustainability Institute na Africa do Sul – tanto pode ser cursado como parte do programa de Mestrado oferecido pelo instituto quanto de forma isolada, por qualquer aventureiro que se interesse pelos temas oferecidos.

Depois de 14 dias na Índia, Luke Metelerkamp embarca para o Nepal, onde vai guiar outros 5 estudantes numa imersão em outro módulo, desta vez, “Ecological Design and Community Building” (“Design ecológico e construção de comunidades”). A imersão no Nepal não tem nenhuma base física, já que o grupo vai literalmente caminhar e acampar todos os dias em diferentes altitudes e visitar vilarejos que resistem à modernização.

Se os 14 dias na Índia valeram a pena para estudantes que vieram da Holanda, África do Sul, Estados Unidos e Brasil? A emoção do ultimo dia, tentando buscar palavras para agradecer a todo a equipe que fez parte do programa, sem dúvidas pode ser uma pista da transformação pela qual alunos e alunas passaram. Afinal, nada melhor do que viver a teoria na prática. Melhor ainda se a prática vier acompanhada da serenidade, amizade e temperos indianos.

Namastê!

* Para saber mais : luke@sustainabilityinstitute.net

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Carta ao Ministro da Educação, por Clarice http://educ-acao.com/carta-ao-ministro-da-educacao-por-clarice/ http://educ-acao.com/carta-ao-ministro-da-educacao-por-clarice/#comments Fri, 16 Aug 2013 01:53:56 +0000 http://educ-acao.com/?p=2242 Screen Shot 2013-08-15 at 22.10.13

Estou aqui revisando os textos do livro “Volta ao mundo em 13 escolas” e, ao procurar uma referência na internet, me deparei com uma raridade: um texto da Clarice Lispector bastante crítico sobre a educação da sua época. E fiz o possível para confirmar a legitimidade da fonte – encontrei duas teses, uma da USP e outra da Unicamp que reproduzem o texto, intitulado “Carta ao Ministro da Educação” e publicado no Jornal do Brasil, em 17 de fevereiro de 1968.

Destaco a seguinte parte: “O senhor [Ministro da Educação] já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem.”

Leia a carta na íntegra:
Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destinadas para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao Presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sinto-me com mais direito de falar como o Ministro da Educação por já ter sido estudante.

O senhor há de estranhar que uma simples escritora escreva sobre um assunto tão complexo como o de verbas para a educação – o que no caso significa abrir vagas para os excedentes. Mas o problema é tão grave e por vezes patético que mesmo a mim, não tendo ainda filhos em idade universitária, me toca.

O MEC, visando evitar o problema do grande número de candidatos para poucas vagas, resolveu fazer constar nos editais de vestibular que os concursos seriam classificatórios, considerando aprovados apenas os primeiros colocados dentro do número de vagas existentes. Esta medida impede qualquer ação judicial por parte dos que não são aproveitados, não impedindo no entanto que os alunos tenham o impulso de ir às ruas reivindicar as vagas que lhes são negadas.

Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! E que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas Faculdades os que tiram melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela. Eu mesma fui universitária e no vestibular classificaram-me entre os primeiros candidatos. No entanto, por motivos que aqui não importam, nem sempre segui a profissão. Na verdade eu não tinha direito à vaga.

Não estou de modo algum entrando na seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto.

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou Presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa.

Se a verba para universidades é curta, obrigando a diminuir o número de vagas, por que não submetem os estudantes, alguns meses antes do vestibular, a exames psicotécnicos, a testes vocacionais? Isso não só serviria de eliminatória para as faculdades, como ajudaria aos estudantes que estivessem em caminho errado de vocação. Esta idéia partiu de uma estudante.

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra “excedente”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentiu desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.

O senhor sabe o preço dos livros para pré-vestibulares? São caríssimos, comprados à custa de grandes dificuldades, pagos em prestações. Para no fim terem sido inúteis?

Que estas páginas simbolizem uma passeata de protesto de rapazes e moças.

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