O perigo da simplificação

by • 31 de outubro de 2012 • inspiraçãoComments (0)2450

Há sempre muitas camadas…

“As escolas públicas são ruins.”
“As particulares são boas.”
“Professores são autoritários.”
“A educação ocidental é destruidora.”
“Certas culturas antigas desenvolveram sistemas educacionais democráticos, abertos e criativos.”
O que todas essas afirmações têm em comum? Elas simplificam a realidade, arrancam o relevo do mundo, fecham os olhos para a complexidade do universo da educação. Quem faz afirmações assim, deixa de dar um passo fundamental diante da camada da superfície: a ação de mergulhar em busca de profundidade.

A escola pública não é constituída só de lados negativos, assim como a particular não é perfeita. Estudei em escola pública da primeira série do fundamental até o último ano do ensino médio, e posso listar tanto momentos escabrosos quanto situações cheias de significado, ambas faíscas promovidas pelas mesmas estruturas. Já visitei várias escolas particulares, principalmente para dar palestras ou participar de eventos, e não me canso de conversar com professores que questionam a rigidez de certos processos das escolas em que trabalham – e, ao mesmo tempo, não deixam de ressaltar reais tentativas de inovação em outras áreas das mesmas instituições.

Nem todo professor se coloca no trono quando chega à sala de aula; e a cultura ocidental, tal como a oriental, desenvolveu propostas de educação que jamais poderiam ser explicadas numa frase, resumidas apenas com um adjetivo. O perigo da simplificação reside no fato de que, a partir do momento em que você vê a situação de maneira reducionista, jogam-se fora as nuances dos processos.

Uma escola é um universo único, um organismo em movimento. Se quisermos abrir uma discussão que carregue um olhar menos viciado, precisamos nos colocar numa zona de desconforto, esticar nossos olhos em busca das minúcias. Ser arqueólogo para encontrar as peças espalhadas, ser poeta para perceber a teia de relações.

“É preciso que tenhamos a audácia de viver seriamente a responsabilidade de seres humanos que querem gerar, no dia a dia, um mundo humano em harmonia com a natureza a que pertencem”, comenta o biólogo e filósofo chileno Humberto Maturana no livro Amar e Brincar. A frase de Maturana vale para a vida e também para a educação – que é parte da vida, aliás. A simplificação nasce da falta de audácia, da escassez de fôlego para ir mais longe.

Por meio do Educ-ação, visitei experiências no Brasil, Inglaterra, Espanha e Suécia. Quais as diferenças entre tais iniciativas e outras escolas? Um primeiro ponto importante: elas valorizam a diversidade e a criatividade – temos falado sobre isso em vários dos posts anteriores, como aqui e aqui. Mas também há outro fator-chave que vale ser salientado: a maneira como essas instituições lidam com conflitos. Porque eles sempre existem: lidar com o conflito é vivenciar a complexidade das estruturas, a extensão do ser humano.

Quando acontece algum conflito na Politeia, por exemplo, uma das escolas pesquisadas, é comum que a instituição entre em contato com os pais e avise: a maneira por meio da qual vamos resolver esse problema se centra no diálogo. Eles conversam com os envolvidos para instigar a consciência de suas responsabilidades. Para certos pais nem sempre é fácil substituir a punição pelo diálogo, ainda mais se o próprio filho é a vítima. Mas é também ao ressignificar a resposta diante do conflito que a Politeia reinventa a estrutura escolar.

Nas pesquisas para o livro, investigamos a rede de circunstâncias que formam os ambientes e dinâmicas, em busca de um olhar mais objetivo, sem o tal dedo inquisidor que divide tudo em caixinhas de certo e errado.

Ter a audácia de deixar o reducionismo de lado é uma aventura, é se embrenhar no meio da mata da complexidade. Como são as escolas públicas? E as particulares? O que é educação para o Oriente? E para o Ocidente? O que todas essas perguntas têm em comum? A partir delas há dois caminhos principais: superfície e profundidade. Qual você escolhe?

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