O poder de fazer com as próprias mãos (NY)

by • 28 de novembro de 2012 • América do Norte, inspiraçãoComments (2)3429

[este é o primeiro artigo da nossa amiga-colaboradora-pesquisadora Mari Baldi, que está de olho em iniciativas inovadoras em Nova York]

O bairro

Desci na estação Morgan Avenue da linha L do metrô – isso fica em uma região chamada East Bushwick, Brooklyn, Nova York. A região impressiona por sua cara de antiga zona industrial, galpões abandonados, escadas que não levam a lugar nenhum, trilhos por onde não passam mais trens, ruas mais largas do que as vielas arborizadas de grande parte do Brooklyn. Esse cenário que tem tudo para ser de uma nostalgia corrosiva é quebrado pela vibração colorida dos inúmeros grafites que pintam os muros da vizinhança. Não é preciso percorrer mais de uma quadra para ver aquela amplidão rarefeita se transformar num colo de vó, de tão aconchegante. A informalidade, ou melhor, a ausência de uma forma dura, tão característicos dos prédios de Manhatam, que mais parecem terem sido montados por gigantes que brincavam de Lego, é traço marcante do bairro, e se estende para os diferentes “negócios” que a região abriga: inúmeras lojas de produtos orgânicos, hortas urbanas, ateliês de arte, e também a 3rd Ward.

A escola

3rd Ward é um espaço de criatividade. Aberto desde de 2005, o lugar era um antigo armazém, e se propunha a ser uma espécie de hub, onde qualquer pessoa poderia alugar um escritório e ter a sua disposição, além de ferramentas adequadas, um espaço amplo para desenvolver qualquer trabalho (o prédio tem quase 2000 m2). O lugar começou a prosperar, e aos poucos, os profissionais começaram a propor oficinas dos mais diferentes tipos, e o hub virou escola.

A 3rd Ward é o paraíso do D.I.Y, eles possuem os mais diferentes tipos de curso que você pode imaginar, e a maior parte deles é do tipo “mão na massa”, desde oficina de como trabalhar com metal até como misturar fragrâncias para fazer perfumes.

Chegando lá você sente de cara o clima do lugar. O recepcionista, ao saber que eu era brasileira, foi logo colocando um Bezerra da Silva para tocar, e ao som de Cocada Boa, me levou no colo (sentido figurado) para entrevistar todo mundo.

Fui conversar com o professor da oficina de metais, o Carlos. Com a sua máscara de solda embaixo do braço (cometi o vexaminoso deslize de dizer que era do Capitão América, mas na verdade era a bandeira da Costa Rica, zero pra mim) me contou que um dos principais aprendizados da escola é fazer as pessoas relembrarem que as coisas não estão prontas, que existe um processo, e que geralmente ele é mais lento do que entrar na loja, passar no caixa e sacar o cartão de crédito.

“Eu faço as pessoas lembrarem que elas tem duas mãos.”

Na sua oficina para iniciantes composta de 4 aulas de 3 horas, ele ensina os alunos a cortarem e soldarem chapas de metais e construírem esse incrível alto-falante para mp3 player. Legal né?!

Além disso, ele relembra que trabalhar com metais é um ofício milenar, e ele sente o peso da responsabilidade e orgulho de passar isso adiante. E por aí segue-se contruindo um aprendizado, que parece que mais que novas habilidades, ensina a tomar mais consciência do mundo. Simples e complexo ao mesmo tempo.

Essa perspectiva não é só dos professores, os alunos confirmam a mesma percepção. Encontrei um grupo que havia recém saído da oficina de marcenaria. Eles exibiam, coisa mais querida, sorridentes, as suas tábuas de cortar alimentos recém-fabricadas:

“Quando você começa a fazer coisas que parecem simples, você começa a dar valor as coisas. Quando você gasta 4 horas para fazer uma tábua de picar comida, simples como essa, você entende melhor porque as coisas custam o preço que tem.”

A 3rd Ward vai um pouco além. Esse papo de sociedade individualista e cada um vivendo tão somente no seu micro-universo, Nova York pode realmente ser isso. Apesar de paradoxalmente ser muito amigável, e as pessoas muito prestativas; uma cena muito comum é ver todo mundo mergulhado nos seus playlists, fones de ouvido e cara de não me perturbe. A 3rd Ward parece ser um oasis para quem cansou desse tipo de vida. A variedade de oficinas traz também uma variedade de alunos, lá você encontra desde escaladores ao pessoal de T.I., e a escola se dedica a por todo mundo em contato, como nessa oficina chamada Drink and Draw, onde você entra com as suas ferramentas de desenho e eles entram com a cervejinha e alguém para modelar. E é na faixa, só chegar.

“No fim das contas é isso, aprender o valor das coisas: das amizades aos objetos.”

Para botar a cerejinha final no bolo, a 3rd Ward não é cara, para a realidade americana (se convertermos dólar para real, tudo nos parecerá caro, nesse caso eu sugiro uma nova moeda chamada “Dinheiros”). Nos EUA qualquer especialização não custa menos de 20 mil dinheiros por ano, e bolsa de estudos e universidade pública de qualidade não é tão comum quanto no Brasil (ponto para nós!).  Na 3rd Ward, você vai pagar, se escolher pelo pacote completo, 3 mil dinheiros por ano (uma bela diferença), e pode usufruir plenamente do espaço, o que significa frequentar todas as aulas, usar de todos os estúdios, escritórios, computadores, a qualquer hora. Se você não tem toda essa verba, existem diferentes pacotes para diferentes necessidades. Se você é um fotógrafo, por exemplo, e só quer alugar o estúdio de fotografia, você paga 300 dinheiros por mês e pode usar os estúdios, com direito a algumas oficinas.

Por fim, a 3rd Ward parece mais um dos diversos de lugares que se conectam a uma forma alternativa de fazer o que sempre foi feito, tanto em educação, como em negócio, como de forma de pensar. Ela quebra a rigidez dos pensamentos medíocres que se fertilizam dentro de uma rotina repetitiva. Ela ainda permite oxigenar a cabeça, afrouxando os nós, criando mais espaço para desenvolver novas ideias e a criatividade. Como definiu um dos donos da escola:

“If you do what you’ve always done, you’re just going to get what you’ve always gotten.”(“Se você faz o que sempre fez, você só terá o que sempre teve”)

No final, o professor de fotografia me convidou para assistir a aula e eu acabei virando modelo fotográfico da turma de fotografia de retratos. Saí de lá com um super desconto para oficinas, um convite para o feriado de Thanksgiving, e 40 retratos meus. Awesome!

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2 Responses to O poder de fazer com as próprias mãos (NY)

  1. Enrique Vago disse:

    Parabens pelo conteudo gerado por aqui sou muito adepto do diy nao sou muito apegado a coisas materiais porem em todo processo de desenvolvimento e construçao o final seja ele satisfatorio ou nao pode nos surpreender ! O que nos leva a querer mais, neste caso destes espaço o processo contrutivo e muito colaborativo.
    Imaginem muitos destes espalhados pelo nosso Brasil.

  2. Amanda disse:

    Mari, adorei o post! A filosofia da escola me lembrou as aulas do Charles Watson, desde pôr a mão na massa – uma coisa que o Charles frisa muito, já que ele diz que “a classe média brasileira não está habituada a tocar no mundo.” – até a importância do processo.
    Adorei! Sorte e sucesso em NY.
    Beijos :)

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