O professor com milhões de alunos

by • 19 de janeiro de 2013 • Brasil, inspiração, PessoasComments (2)3386

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O fundador da Khan Academy veio ao Brasil esta semana.

Em palestra realizada pela Fundação Lemann, em SP, Salman Khan explicou as origens da sua plataforma on-line com mais de 3 mil videoaulas de matemática, ciências, humanidades, entre outros assuntos.

Os vídeos atingiram mais de 230 milhões de visualizações, com 43 milhões de usuários no total, sendo que o número de acessos mensais chega a 6 milhões – aliás, vale ressaltar que os visitantes do portal estão espalhados por mais de 200 países distintos.

A origem da academia de Khan é recente, o estopim se deu em 2004. Nadia, sua sobrinha, tinha 12 anos na época, e não havia alcançado boas notas numa prova de nivelamento de matemática, ao final do sexto ano. A garota era dedicada aos estudos, sempre tirou notas exemplares – por isso, o peso da frustração causada pelo mau desempenho foi enorme. Preocupado com a sobrinha, Khan elaborou um plano: se a escola permitisse que Nadia refizesse a prova, ele daria aulas particulares para ela, à distância. “Que fique claro que, no começo, tudo era apenas uma experiência, um improviso”, conta Khan no livro Um Mundo, Uma Escola: A Educação Reinventada, recém-lançado no Brasil. Naquele momento, ele ainda trabalhava no mundo das finanças, como analista de fundos hedge (eu não sabia o que era um “analista de fundos hedge”, então encontrei uma matéria na Folha que diz o seguinte: “os fundos hedge estão entre as aplicações financeiras mais agressivas disponíveis no mercado de capitais (…) a principal meta do gestor é conseguir o maior retorno possível para os recursos aplicados, aplicando nos mais diversos ativos financeiros: moedas, ações de mercados emergentes, ou títulos de dívida pública que rendem a juros altos, como no Brasil”).

As primeiras conversas entre o tio Khan e a Nadia foram realizadas por meio de uma ferramenta chamada Yahoo Doodle, além de ligações telefônicas. Inicialmente, as conversas foram “pura tortura”, diz Khan. Parecia que sua sobrinha apenas chutava as respostas das suas perguntas, a aprendizagem não fluía. Com insistência, as aulas à distância se tornaram produtivas, até que a jovem refez a prova e tirou uma nota melhor. Nesta altura, outros alunos já tinham aparecido – sim, outros dois sobrinhos. Pouco tempo depois, eram dez alunos. Os encontros por Skype com três ou quatro deles por vez não pareciam eficientes, e então, quando Khan achou que devia recuar, que as tais aulas demandavam muitas responsabilidades, um amigo lançou uma sugestão: por que você não grava as aulas e as publica no YouTube?

A primeira reação de Khan foi pensar que a ideia era ridícula. Até então, ele considerava o YouTube como um espaço para gatos tocando piano, não para matemática. Em um segundo momento, a sugestão foi levada a sério. As videoaulas hospedadas no YouTube nem contêm a imagem de Khan, pois arcar com custos de produção altos sempre esteve fora dos planos. “O perigo era que o foco do processo acabaria virando fazer filmes em vez de orientar os estudantes. Dar aulas particulares é algo íntimo. Você fala com alguém, não para alguém”.

As aulas online fizeram um sucesso estrondoso. Para ver um resumo da história, dê uma olhada no infográfico abaixo (criado pelo parceiro Porvir):

O que mais me interessou na palestra foi a visão de Khan sobre a educação como algo que se pode dar de graça.

Um dia, Khan soube que Bill Gates estava mostrando os vídeos da Khan Academy para seus filhos. Ele passou a se dar conta da democratização do conhecimento gerada pelo projeto: os filhos de Gates acessaram o mesmo material que jovens de qualquer lugar do mundo tinham acesso também, sem custo nenhum além do uso da internet.

Outro ponto importante é o estímulo que Khan dá aos professores para que eles aproveitem melhor o tempo com os alunos. Ao recomendar os vídeos da Khan Academy para as escolas, o educador destaca que, se os alunos chegarem nas aulas já familiarizados com os conteúdos, os professores podem aproveitar o tempo da aula para desenvolver dinâmicas mais criativas.

Quando perguntaram a Khan as suas impressões da realidade brasileira, ele lançou uma aposta: “Nos próximos cinco ou dez anos, tenho certeza, o Brasil será um exemplo de educação para o resto do mundo”. “A sensação é de que aqui vocês querem que as coisas aconteçam rapidamente”, comentou.

Senti falta de uma coisa em especial, que ia apontar numa pergunta, mas não consegui, pois o período para questões foi escasso. Khan falou bastante sobre a educação citando apenas professores e alunos. Não mencionou a importância dos pais e da comunidade nos percursos de aprendizagem, por exemplo. Numa conversa recente que tive com José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte e mentor do Projeto Âncora, falamos bastante sobre a educação como um processo coletivo, em que os pais e a comunidade local participam ativamente, para que não só a escola seja reconhecida como um espaço educador, e sim a cidade inteira. O educador mineiro Tião Rocha aprendeu em Moçambique uma lição que tem tudo a ver com isso: é preciso toda uma tribo para educar uma criança. Permanece o desafio: como a tecnologia pode ajudar a conectar e instigar a participação de toda uma tribo?

Para fechar, vale dizer que os vídeos da Khan Academy estão sendo traduzidos para o português, pela Fundação Lemann (e alguns deles, como este aqui, têm como dublador a mesma pessoa que dublou o personagem Goku, do desenho animado Dragon Ball Z). Na sua rápida passagem pelo Brasil, Khan também conversou com a presidenta Dilma e fechou uma parceria para disponibilizar um software com aulas da Khan Academy em português aos 600 mil tablets que serão distribuídos a professores de ensino médio em escolas públicas.

Para fechar de vez, vale compartilhar parte o último parágrafo do livro Um Mundo, Uma Escola:

Será a Khan Academy, junto com as intuições e ideias a ela subjacentes, nossa melhor chance de progredir rumo a um futuro educacional melhor? Não cabe a mim dizer. Outras pessoas de visão e boa vontade têm abordagens diferentes, e espero com ardor que todas tenham uma boa chance em um mundo mais amplo. Porém, abordagens novas e arrojadas precisam ser colocadas em prática. A única coisa que não podemos permitir é deixar as coisas como estão. O custo da inércia é inescrupuloso e alto, e é contado não em dólares, nem em euros e rupias, mas nos destinos das pessoas.

*** Para saber mais, veja a palestra de Khan no TED:

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2 Responses to O professor com milhões de alunos

  1. Gabriel disse:

    Acho a experiência da Khan Academy interessante, mas considero que esteja recebendo um status que não lhe cabe. Como foi apontado na postagem, Khan não se refere, em seu método, à participação do entorno social que envolve o processo educativo. Além disso, vejo outras lacunas em sua proposta: um vídeo explicativo é uma única abordagem, uma única estratégia. A pedagogia contemporânea recomenda que o professor alterne e varie as estratégias, de forma a trabalhar diversas competências e habilidades e atendendo o perfil diverso dos alunos. Com a proposta de Khan, me parece que ficam de lado habilidades e inteligências menos conteudistas e ligadas à memorização e também os valores que inspiram o processo educativo. Acredito que seja um bom método para treinamentos específicos, focados, mas não para toda a educação básica. A proposta de interação via internet entre os diversos estudantes é interessante. Mas também é algo que já ocorre, espontaneamente, no dia-a-dia dos estudantes, que trocam informações e ajudas. Pelo menos é o que eu enxergo, no meu trabalho em sala de aula. Enfim, não acho que seja de se descartar a proposta de Khan, mas convidá-lo a repensar a organização do sistema educacional brasileiro, como foi divulgado na mídia essa semana, é demais e, no mínimo, um desrespeito aos inúmeros estudiosos da educação brasileiros e do mundo, que reunem pesquisas e estudos, há anos, sobre a educação.

    • andregravata disse:

      Valeu pelo comentário, Gabriel!

      Ao ler seu comentário, pensei que é importante ressaltar como entendo a abordagem da Khan Academy: ela é a possibilidade de complementar a relação presencial na escola com videoaulas e não uma proposta que transforma a sala de aula num complemento do acesso a vídeos. Ou seja, mais do que imaginar a Khan Academy como uma panaceia para os desafios da educação, prefiro vê-la como um projeto que potencializa outras possibilidades – pode aumentar um pouquinho o espaço para que o professor seja mais inventivo, por exemplo, gastando menos tempo na atividade de transmitir conteúdos, no tal “ensino bancário”, como diria Paulo Freire.

      Mas também concordo que os vídeos do Khan também deixam aberta uma armadilha, claro, fazendo com que certos professores usem as videoaulas como muletas (muletas que carregam uma abordagem única, como você bem disse) para um trabalho já deficitário em sala de aula.

      Sobre o Khan ser chamado para colaborar com a educação no Brasil (http://ne10.uol.com.br/canal/educacao/noticia/2013/01/17/professor-americano-e-convidado-a-colaborar-com-pacto-pela-alfabetizacao-393499.php), também é um assunto que vale ser destacado, importante e polêmico, porque há sim educadores bastante criativos e capacitados no nosso país que mereciam convites desse tipo e até hoje não foram chamados para nada…

      Continue postando comentários por aqui, assim aumentamos o diálogo no blog!
      Grande abraço!
      André Gravatá

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