Próxima parada: La Bahia, escola experimental na Argentina

by • 16 de março de 2013 • América do Sul, Espaços de Aprendizado, inspiração, Jornada, PessoasComments (2)4381

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Daqui a pouco embarcaremos para a Argentina, mais exatamente para a fria cidade de Ushuaia, no extremo sul da nossa América. Seguimos rumo à  La Bahia, uma escola pública iniciada por pais, que faz parte de uma rede experimental com trinta unidades espalhadas pelo país. Abaixo, há um trecho da entrevista que fizemos por e-mail com um dos professores da escola, o também jornalista Emilio Urruty. A tradução foi feita por Renan Camilo, um colaborador que nos acompanhará nesta viagem.

PERGUNTA: Por que as escolas experimentais são diferentes das escolas tradicionais?

Bom, isso não é tão fácil de responder porque, em geral, no que diz respeito a encontrar diferenças, destacam-se os aspectos formais, que são mais visíveis, de modo que corremos o risco de nos esquecermos o essencial desta proposta educativa.

Prefiro falar das características de nossas escolas, e não das diferenças. Não se define algo por aquilo que o diferencia dos demais, mas por aquilo que lhe é próprio. Por outro lado, não existem escolas experimentais iguais, que seguem o mesmo padrão; não são clones idênticos de uma escola original, mas organismos com vida própria, uma vida que se estrutura no dia a dia, com o trabalho de todos.

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Identifiquemos, então, o que é próprio e fundamental desta proposta, segundo meu humilde saber e entender (não é uma enumeração ordenada):

A atitude de compartilhar;
O silêncio interior como ponto de partida;
O estar presente em todo momento e em toda atividade;
A alegria do trabalho sem expectativa de resultados, nem de prêmios ou castigos;
O fazer em estado puro (nem teorias, nem interpretações, nem técnicas preconcebidas);
O estímulo da criatividade e originalidade (ponto de atenção: originalidade é diferente de “novidade”);
O respeito pelos tempos e capacidades de cada um (não há um “modelo a seguir” nem um “melhor aluno” etc.);
A presença diária de materiais culturais de todo o mundo (ccontos tradicionais, mitos e lendas, música, canto e dança);
A arte, tomada por seu próprio valor criativo e expressivo, mas nunca como ferramenta didática (não se ensinam técnicas);
O livre acesso aos materiais disponíveis: livros da biblioteca, equipamentos de trabalho, mapas, utensílios de cozinha, jogos etc. (nada é escondido);
Espaços comuns compartilhados para o trabalho diário (nem sempre na sala de aula).

Antes de ampliar esses pontos, digamos que dentro do sistema educativo “tradicional”, talvez mais convencional, também se pode encontrar algunas dessas características e existem muitos propósitos bons. Nesse sentido, as escolas experimentais configuram um propósito distinto. No entanto, e isso é essencial, não se trata de um propósito hegemônico (não é imposta a partir de um poder político como modelo único); a diversidade, sobre a qual tanto se discute atualmente, é um valor que as escolas experimentais preservam com os gestos de cada dia.

A proposta educativa, com mais de meio século de vida, e já com um conjunto de trinta unidades em toda a Argentina (criadas sempre a partir da iniciativa de um grupo de pais), não pode ser rotulada como “método”. Nossa tarefa escolar que, com certeza, se ajusta aos planos de estudos vigentes em cada estado, se desenvolve sobre certas premissas, claro, mas certamente não se pode definir como um método. Não temos uma receita mágica, nem uma teoria infalível.

A principal diferença não está no “quê” se aprende, mas em “como” se aprende. O fazer, o conhecer, o trabalhar, seja na área que for, podem ser uma reconfortante fonte de alegria; e assim será para o aluno sempre e quando compartilha a tarefa diária com um professor que quer estar ali, fazendo aquilo que o toca, presente, alegre, entusiasmado – também ele – pela maravilha do conhecimento e do trabalho. Estar presente, então, é uma dessas premissas básicas.

Outra é a de compartilhar: compartilhar o espaço e o tempo de trabalho, os equipamentos escolares, a música, o momento da refeição ou do canto, os jogos, a limpeza do lugar onde estamos. A propósito, limpamos a escola entre todos, a cada dia; não há um pessoal de serviços, nem cozinheiros. Somente professores e alunos.

A atitude de compartilhar deixa fora dos muros da escola os impulsos egoístas ou competitivos, e a tendência de se sobressair, ou a de fazer as coisas com outro intuito que não seja a simples alegria de fazê-los. Assim, quando um menino prepara uma aula especial, não o faz com a ideia de ser aprovado na disciplina ou para tirar uma boa nota, mas simplesmente para compartilhar o aprendido junto com os companheiros. Compartilhamos, sem esses pensamentos de “vamos ver quem termina primeiro” ou “vamos ver quem faz melhor”. Esperamos mutuamente, nos ajudamos. Compartilhar é a chave em nossas escolas.

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Outra característica é que os grupos trabalham em um salão comum, sentados em círculo no chão, sobre almofadas, cada professor com quinze alunos, aproximadamente. O número pode variar, dependendo da mobilidade necessária entre os grupos que se dá na medida em que o ano transcorre.

Nesse âmbito compartilhado, crianças e adultos frequentam todos os dias a pintura, a música, o canto, a dança, a poesia, além de todos os outros conteúdos curriculares que correspondem a cada grupo. Alunos e professores, juntos, também fazem teatro, fotografia, cinema e muitas atividades ao ar livre, na natureza. Na “La Bahia”, por exemplo, caminhamos muito pelo bosque e pela montanha, saimos para observar aves ou para remar no canal Beagle. Outras escolas experimentais desenvolvem projetos de permacultura (A permacultura é um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana – jardins, vilas, aldeias e comunidades – ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. Fonte: Wikipédia), construção com barro, encadernação, carpintaria, tear…

Todos os materiais que existem na escola estão ao alcance de todos, nunca escondidos a sete chaves, e tratamos para que sejam de boa qualidade, além de originais. O repertório literário e musical tradicional do mundo nos ofrece um tesouro diverso e fascinante e, por sua vez, inesgotável. Nossas bibliotecas estão bem nutridas e os alunos costumam ler bastante, desfrutam a leitura. Todo dia, desde os três anos de idade, as crianças escutam, em círculos, da voz de seus professores, a narração de algum dos muitos mitos do mundo.

Em breve, mais trechos da entrevista…

* O professor Urruty foi um dos entrevistados no documentário La Educación Prohibida, veja mais abaixo:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=VccjEhYCCRM&w=560&h=315]

* Fotos: Divulgação

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2 Responses to Próxima parada: La Bahia, escola experimental na Argentina

  1. […] that differentiate Experimental Schools from traditional ones. We’ve talked a bit about it here, now I will only mention one of the key points: the importance of […]

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