Quando a educação vai à rua

by • 14 de novembro de 2012 • inspiração, JornadaComments (1)3420

“Pessoas com educação não matam. Pessoas com educação amam.”

Foi uma das primeiras frases que ouvimos na tarde de sábado em que realizamos uma intervenção urbana. Eu, a Carla Mayumi (uma das quatro integrantes do nosso coletivo Educ-ação) e amigos ficamos embaixo do vão do Masp, em SP, com cartazes que carregavam perguntas como:

Qual o propósito da educação?
Vamos conversar sobre educação?
Qual a escola dos teus sonhos?

Várias pessoas vieram conversar com a gente. Desde um senhor que disse: “quando as pessoas falam sobre educação, só mencionam os jovens. Por que ninguém fala dos adultos?”, até uma mulher que, enquanto nos ouvia falar sobre a ação, traduzia tudo para a amiga, em alemão.

Realizamos essa intervenção não apenas para divulgar nosso projeto, mas também para discutir o tema da educação na rua, onde há pessoas de todas as tribos e paixões, onde mora a diversidade. Queríamos causar uma faísca no dia a dia, explorar outras possibilidades de encontros com pessoas estranhas.


Não foi a minha primeira intervenção urbana, mas foi a única em que um caminhão foi usado na ação.

Antes de continuar essa história, compartilharei um pouco da minha relação com intervenções urbanas baseadas na simplicidade, na combinação entre cartolinas e ruas.

No ano passado, estive também embaixo do vão do Masp, em SP, com uma cartolina na qual escrevi a palavra ”Sorria” em letras garrafais, quando motivei tanto gargalhadas quanto olhares fulminantes. Por que comecei tais ações? Como já disse, por vontade de experimentar outro tipo de relação com estranhos, para trocar ideias com pessoas desconhecidas, que são seres humanos como eu – e vejam, é curioso, usamos a palavra “estranho” para designar as pessoas com as quais não tivemos contato. Estranho? Estranho significa desconhecido. Estranho significa esquisito. A língua denuncia: vemos o outro como um esquisito em potencial – é a presunção de que o diferente é extravagante.

Em outra ação, abordava pessoas nas ruas, perguntava para elas se topavam escutar um poema e então lia Alberto Caeiro – um dos meus favoritos – para os passantes dispostos a abrir as portas dos seus ouvidos. Numa experiência recente, segurei um cartaz com a frase “Que tal começarmos uma conversa?”, acompanhado de uma amiga, a designer Alice Vasconcellos. A ação rendeu encontros com desconhecidos que pareciam amigos de infância e, claro, também com pessoas que lançavam um olhar cético sobre nossa postura – uma professora, por exemplo, insinuou que devíamos ir ao psicólogo.

Numa outra oportunidade, fui para as ruas com uma lousa que exibia a frase: “O que você está fazendo para transformar a educação no Brasil?”. A fisionomia das pessoas diante da lousa me deixou desconfortável. A reação se repetia: olhavam, imediatamente baixavam a cabeça e faziam uma expressão de desamparo. Poucos esboçaram um comentário. A pergunta não era boa, confesso. Numa época em que a culpa ainda é um valor encarnado nas entranhas, as questões que apontam o dedo para as responsabilidades coletivas podem gerar uma ruminação melancólica. Não demorou muito, mudei a questão.

A segunda pergunta foi a seguinte: “Você pensa que a educação no Brasil precisa ser transformada?”. Ainda não gostava muito da frase – talvez soasse melhor “… precisa de transformações?” –, mas, detalhes verbais à parte, quis mostrar essa segunda pergunta para as pessoas e sentir as reações. Muitos responderam com sentenças curtas, impregnadas de pessimismo, como “a escola é uma porcaria”. O impacto mais profundo da intervenção foi sutil. Houve quem repetisse a pergunta da lousa para a pessoa ao lado. Uma mulher declamou a questão em voz alta, para um grupo de amigas. Um policial falou para outro, deu para ouvir, bem baixo: “Você pensa que a educação no Brasil precisa ser transformada?”. O simples fato de dezenas de pessoas entrarem em contato com essa interrogação já é relevante, quem sabe isso marque o início de questionamentos maiores.

De volta à intervenção mais recente, realizada com a Carla e outros amigos, também senti que o simples fato de as pessoas ouvirem as questões propostas já era significativo. E nessa experiência houve um momento ápice: um caminhão parou atrás de nós. Do caminhão, saíam, pouco a pouco, as armações de metais para a tradicional feira de domingo do Masp. Ao invés de pensarmos: “este caminhão vai atrapalhar nossa intervenção”, veio uma ideia, posta em prática imediatamente. O plano era conversar com o motorista do caminhão, pedir autorização para colarmos os cartazes no lado do veículo em frente à Av. Paulista. Quando fui falar com ele, o pedido excêntrico foi bem recebido – daí já começamos a colar as perguntas e frases, à vista de todo mundo.

Pessoas que pararam para trocar ideias, perguntaram se havíamos contratado o caminhão apenas para a ação. Sem nem percebermos, criamos uma exposição a céu aberto, num caminhão, no vão do Masp. Uma faísca no dia a dia das pessoas, um momento para que elas se questionassem sobre os rumos da educação. Você já pensou em sair à rua para instigar outras perspectivas nas pessoas? Você pode fazer uma intervenção dessas que citei aqui quando quiser. Basta cartolina, rua, coragem. Vontade de se conectar com as pessoas pelo simples fato de que elas também são pessoas – e pessoas trocam ideias, aprendem com a troca.

* se este post te inspirar a fazer uma intervenção também, compartilhe com a gente as suas ideias: andre@educ-acao.com

* trechos deste texto foram retirados de um artigo publicado aqui.

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One Response to Quando a educação vai à rua

  1. edushima disse:

    Quando acontecem intervenções deste tipo, acho também incrível a quantidade de pessoas que passam e sequer piscam, não desviam o olhar para ver melhor, não desaceleram…simplesmente parece que aquilo não existe ! Parecem ocupadas demais em suas trituradoras rotinas…

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