Refletir do começo até o fim

by • 30 de janeiro de 2013 • Asia, Espaços de Aprendizado, inspiração, JornadaComments (0)2340

O conhecimento está por toda parte, cada vez mais acessível, dizem até que estamos vivendo “a era da informação”. Mas, mesmo com tanto conteúdo disponível, mudar velhos vícios continua sendo difícil.

Sou muito fã das obviedades. A maioria das pessoas concorda com a famosa frase do grande Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Mas quantos de nós realmente paramos para mudar aquilo que esperamos que mude?

A escola que visitei na Índia, a Riverside School, é muito sobre isso, sobre uma retomada da ação, sobre colocar o óbvio em perspectiva e questionar o tempo todo como o conhecimento pode se transformar em uma prática cotidiana e real. Foi pensando nisso que Kiran Sethi, a fundadora da escola, escolheu a frase “common sense, common practice” (talvez a melhor tradução seja “bom senso, boa prática“) para representar o princípio fundamental que rege a Riverside.

Vamos começar pela seguinte obviedade: o processo de reflexão. Refletir faz parte do vocabulário de professores e alunos dessa escola. Você percebe isso quanto vê esse verbo ser usado em diferentes situações e contextos, por diferentes pessoas. E sabe o melhor de tudo? Na Riverside refletir não é só uma mentalidade, mas também é parte do processo de aprendizagem.

A palavra reflexão, vejam que interessante, vem do latim e é composta pelos termos “novamente” (re) e “dobrar” (flexus). Vejam que “dobrar” tem o sentido quase poético de “voltar ao começo”, mas sem deixar a outra parte pra trás – uma dobra precisa de todas as partes do processo. Se pensarmos sobre o assunto, é fácil concluir que deveríamos refletir mais no trabalho, para aprender com o passado. Deveríamos refletir sobre nossos relacionamentos para tomarmos melhores decisões no futuro. Deveríamos ensinar nossos filhos a refletirem sobre as consequências do que fazem.

Se você é mãe ou pai, pense no quanto reflete sobre um outro papel que exerce diariamente, aquele de educador de uma criança. Refletiu sobre o que responder na última vez que seu filho perguntou se podia fazer alguma coisa? Perguntou a si mesmo sobre o conteúdo da pergunta? Tem refletido sobre o exemplo que você dá ao seu filho? Como adulta, me coloco diante dessas interrogações e me dou conta do quanto nos acostumamos a automatizar nossas respostas às crianças. Muitas vezes sem nenhuma reflexão.

Na Riverside, por exemplo, certas atividades motivam a reflexão e o autoconhecimento nas crianças do jardim de infância à quarta série. Música, dança, contação de histórias, gastronomia e esportes são as áreas de interesses especiais identificadas pela escola. Cada um dos alunos escolhe seu interesse e, coletivamente, uma criança é selecionada para ser o professor daquele tema durante três meses.

Fomos apresentadas para uma menina muito quietinha de 6 anos – convido-o a pensar em alguma criança de 6 anos que você conhece. Essa menina veio com seu caderno nos mostrar seu plano de aula, ela era a escolhida para organizar o encontro de contação de histórias. Quando abriu o caderno, o plano estava lá: anotações organizadas sobre qual livro ela iria ler (what), o porquê daquele livro (why), como a aula iria acontecer (how) e por fim, estava lá a palavra “reflexões” (reflections). Ela havia escrito a reflexão que desenvolvera junto com a professora depois de sua última sessão: “O livro que eu escolhi era muito longo e alguns alunos ficaram cansados. Da próxima vez preciso escolher uma história mais curta”.

Mais do que um processo à parte, a reflexão se tornou parte da cultura da escola. Bom senso, boa prática.

* imagem acima retirada daqui.

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