Um dia na Riverside School

by • 25 de outubro de 2012 • Asia, Espaços de Aprendizado, JornadaComments (4)5625

A Riverside School fica em Ahmedabad, na Índia. Está perto de um rio, respira a natureza do lugar; as muitas árvores em volta tornam mais fresca a sensação de 35º dessa época do ano. Estamos aqui desde segunda-feira, numa avalanche de descobertas – são tantas e tantas, que precisaremos do capítulo do livro dedicado a ela para relatar tudo. Aqui fica uma pincelada do início da nossa manhã de hoje, quinta-feira 25/10 (estamos 8 horas na frente do Brasil).

Começamos o dia cedinho, assistindo a um “conglom” da terceira série. A primeira informação importante é o que é um “conglom” aqui na escola. A palavra vem de “conglomerado” e define um encontro entre professores e alunos que acontece todas as manhãs. A que assistimos hoje contava ainda com a presença de uma school leader, a pessoa responsável pelo grupo de séries chamado Key Stage 2 (da 3ª à 7ª série).

O que acontece ali é uma conversa que faz com que alunos e professores reflitam juntos como será o seu dia. O que vão aprender? Por que aquele aprendizado é importante? Para que ele serve? Em palavras de Deepa, a school leader:

“Para mostrar a relevância do aprendizado para as crianças, fazendo com que elas se sintam engajadas e entusiasmadas com o que vão aprender.”

Aí começa a diferença da Riverside para modelos mais tradicionais. O que vimos foram crianças de 8 anos completamente engajadas com a escola, com o conteúdo, com os professores e entre eles, alunos. A conversa no conglom de hoje girou em torno de suas personalidades. Sim, eles conversavam sobre suas próprias características como pessoas, para assim formarem pequenos grupos de trabalho bem distribuídos para a próxima tarefa. Assistimos às crianças, um grupo por vez, declarando suas capacidades e potenciais assim como os de seus amigos.

“Eu escolhi o Aryan porque ele é gentil e sabe ajudar os outros. Eu vim para esse grupo porque sei fazer perguntas e deixar as pessoas à vontade.” (palavras encantadoras de uma menina de 8 anos)

Fomos conversar com dois alunos depois de assistir a esse pequeno encontro de meia hora com lições “disfarçadas” de reflexão, auto-conhecimento, colaboração, apresentação em público e inglês  – estavam também desenvolvendo seu vocabulário.

Nossa experiência a partir daí foi brindada com uma sequência de relatos entusiasmados da Parisha e do Aryan, muito comunicativos e seguros de si. Ali, diante dos nosso olhar curioso, brilhavam estes pequenos seres falantes usando confortavelmente palavras como “brainstorming”, “social work”, “art installation” e “team work”.

Perguntei sobre o que tinha acontecido no conglom e eles contaram que tudo isso faz parte de uma preparacão para um evento do qual vão participar. O evento é de uma ONG e a tarefa deles é preparar chocolates que serão vendidos no evento, que terá o valor das vendas revertido para a instituição, que ajuda crianças carentes. O mais legal é que isso faz parte do que estão aprendendo na “disciplina” – eles não chamam assim – de Language Package. Explico: eles chamam cada grupo de habilidades de beacon, que significa farol. No farol da linguagem estão as habilidades ligadas aos idiomas (inglês, hindi e a língua local, gujarati), à escrita, à leitura, à escuta e à comunicação.

Tudo começou com a leitura do livro “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Leram o livro, assistiram ao filme, conversaram sobre como o roteiro do filme refletia o conteúdo do livro. Partiram para o planejamento dos seus próprios chocolates, cujos ingredientes teriam que se conectar com suas personalidades. Cada um escolheu 3 palavras que lhe representava. Arya, o garoto que conversou com a gente, escolheu para o preparo de seu chocolate um ingrediente para cada uma de suas características. Gelatina porque ele é um bom amigo (friendly), menta por seu jeito engraçado (funny) de ser e pimenta porque nem sempre ele é um garoto bem comportado (naughty).

Fizeram seus chocolates – provamos um deles, delicioso – e assim aprenderam também um pouco de matemática, pois tiveram que calcular as quantidades de ingredientes e o preço que vão cobrar. Visitaram a ONG e lá tiveram vários aprendizados, um pouco sobre a ONG e seu trabalho em si, outro tanto aprenderam a partir de uma observação curiosa. Viram como os mosquitos são repelidos pelas lâmpadas e como a higiene é trabalhada no escritório.

Ainda parte da mesma “lição”, visitaram uma escola de crianças com condições menos privilegiadas que estudam em uma escola pública. Esse tipo de visita ao mundo fora da escola é bem comum aqui. Esse processo todo deve durar algo em torno de 2 meses.

“Em 4 meses, devemos ter tido aproximadamente 10 interações com o mundo lá fora, seja a partir de uma visita ou recebendo alguém de fora da escola”, nos contou a professora.

Não partem para essa jornada sem antes refletir sobre o que querem aprender com ela ou o que devem observar e perguntar. Uma das questões que eles queriam saber das crianças da outra escola era onde passavam suas férias de verão. Descobriram que estas crianças têm uma vida diferente da deles. Elas não tiram férias e algumas têm até que trabalhar.

Ufa! Quanta coisa em torno de um simples chocolate. Vimos ainda um mapa mental do chocolate, uma instalação artística com barras de chocolate feitas de papelão e argila, cartazes, frases sobre a história do chocolate, como essa:

“No passado, grãos de cacau eram usados como moeda.”

Tudo isso nos conta muito sobre a filosofia básica por trás do pensamento da Riverside, sintetizado na frase “Senso comum, prática comum”. (Common Sense, common practice.) 

Quando perguntei à Kiran sobre como nasceu essa frase, ela falou simplesmente:

“Nós sabemos que crianças precisam aprender a conversar. Então vamos ensiná-las a conversar! Um dos meus papéis aqui é esse: manter vivo esse pensamento, ajudando a equipe a transformar o que sabemos que é senso comum virar uma prática.”

A mensagem é muito simples: se sabemos o que deve ser feito pelas crianças, vamos fazer.

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4 Responses to Um dia na Riverside School

  1. bicudo disse:

    na minha busca por aproveitar no mundo real a inteligencia das redes, aflorada no digital, achei interessante uma metologia Agil de desenvolvimento de Projetos, o Scrum.
    Inspirada naquele bolo de jogadores de Rugby (um ‘caranguejo’), propoe uma constante interaçao dos colaboradores.
    Os Conglons me lembraram esses encontros rapidos do Scrum, que estou adaptando para uma Educaçao Hacker

  2. […] (Team Academy), Suécia (YIP), Inglaterra (Schumacher College), Indonésia (Green School), Índia (Riverside), EUA (North Star) e Brasil (Politeia e Cieja). Como visitamos oito espaços de aprendizagem, quer […]

  3. […] Spain (Team Academy), Sweden (YIP), England (Schumacher College), Indonesia (Green School), India (Riverside), Argentina (Escuelas Experimentales), South Africa (Sustainability Institute), USA (North Star) […]

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