Uma hora com Sir Ken Robinson – parte I

by • 6 de novembro de 2012 • inspiração, Jornada, PessoasComments (2)6513

Ontem passei uma hora com Sir Ken Robinson, um escritor britânico que ficou bastante conhecido depois de uma palestra no TED e livros como O Elemento e Out of Our Minds (“Fora das Nossas Mentes”, em tradução livre). Logo ao chegar na sala do evento, a primeira frase que ouvi já sinalizou que a conversa seria bem interessante: “organizações humanas não são como máquinas, elas são como organismos vivos”.

Como Sir Ken Robinson veio parar no Brasil? Ele veio a convite da HSM, uma empresa de conteúdo, eventos e capacitação voltada a executivos – vale deixar um imenso agradecimento ao Maurício Escobar, do grupo Anima Educação e ao presidente da HSM, Vladimir Barbieri, que possibilitaram minha ida à conversa.

Como bom britânico, ele começou o evento no horário combinado, às 19h em ponto. No decorrer da conversa, com duração de uma hora, várias perguntas foram feitas pelo público, a partir das quais ele refletiu sobre questões fundamentais da educação hoje e sempre, além de citar experiências educacionais que chamaram sua atenção. Elogiou, por exemplo, uma ação dos estúdios Pixar, que oferecem a todos os funcionários o direito de passar quatro horas por semana na Pixar University. O ponto central da iniciativa: a Pixar acredita que, se você trabalha lá, você trabalha na área de filmes, então é importante conhecer mais sobre sua área, seja você quem for. Numa conversa entre amigos, Ken Robinson contou essa experiência a Richard Gerverele, chefe de uma escola primária chamada Grange Primary School. Richard ficou tão inspirado que criou um projeto chamado Grange University. Professores, estudantes e pais foram convidados a sugerir ideias de aulas na “universidade” da escola. Foram chamados a compartilhar o que eles gostam de fazer, a ver isso como um assunto com potencial de se transformar em aulas. Você gosta de animais? Por que não dar uma aula sobre bichinhos de estimação? Vieram várias propostas e assim o currículo convencional começou a ser suspenso todas as sextas-feiras, momento em que entram as aulas oferecidas tanto por alunos quanto por pais e professores. Imagine a microrrevolução: alunos dão aulas para professores e pais. Pais dão aulas para professores. “Essa ação causou um impacto fantástico, hoje em dia todos os alunos esperam pela sexta-feira”, diz Robinson.

Precisamos reconhecer a possibilidade de criar uma cultura maleável, comenta o educador britânico. É fundamental entender que, na verdade, “nós não podemos ensinar, apenas aprender” – ele falou esta última frase após contar o nome do livro que está lendo agora, escrito por Paulo Freire: Pedagogia do Oprimido. “O trabalho do professor é facilitar o aprendizado”, disse. Ele pensa no papel do professor como um facilitador, um possibilitador que cria condições para a realização do processo de aprendizagem. Ao falar sobre o educador, ele se lembrou de outra história, de um amigo professor que desenvolveu uma estratégia criativa para ensinar o que são parágrafos. Antes de contar o que esse educador propôs aos alunos, lanço uma pergunta a você que está lendo este texto: como você explicaria o que são “parágrafos” para um grupo de crianças?

Pensou?

Sigamos à proposta do professor: primeiro ele perguntou se os jovens tinham visto uma série de televisão que todos gostavam, e eles disseram sim, em coro. O professor continuou: então vamos assistir a essa série. Mas assistir a essa série na escola, professor? Sim, sim. E eles assistiram e discutiram inúmeros aspectos, desde questões relacionadas aos personagens até ao movimento da câmera. Numa das partes da discussão, falaram sobre o fato de que ora havia imagens de um espaço, ora de outro. Se em um momento a câmera mostrava a sala, em outro exibia uma igreja. Começaram a perceber que, quando a câmera estava na sala, ela também mudava, ora para uma parede, ora para um rosto. A primeira aula sobre parágrafos foi aproveitada assim, com uma discussão sobre o filme. Na outra aula, o professor levou textos de Charles Dickens, lidos em conjunto. Em certa parte da aula, veio à tona uma comparação: parágrafos são parecidos com cenas de vídeos. Uma cena, assim como um parágrafo, é uma troca de olhar, é um movimento em busca da continuação do assunto em outro ponto.

O que acontecia nesse momento?

Os alunos aprendiam por si mesmos, com suas próprias reflexões, o que são os tais parágrafos. O professor estava apenas instigando o percurso de aprendizagem. E sobre a terceira aula? O educador entregou os textos do Dickens novamente, mas com uma mudança fundamental: não havia mais parágrafos. Ele tirou todas as quebras de linhas do texto e lançou um desafio: quem consegue colocar os parágrafos de volta? Os estudantes começaram a fazer a tarefa com bastante entusiasmo, diziam uns aos outros: Dickens nunca colocaria um parágrafo naquela parte, Dickens certamente colocaria aqui… “Ser professor envolve entender uma matéria e saber como engajar os alunos nessa matéria”, comentou Sir Robinson. 

Quer saber o que ele pensa sobre a imaginação, a criatividade e a inovação? Quer saber detalhes sobre a conversa entre Sir Ken Robinson e a professora de francês da sua filha? Ainda esta semana, compartilharei um segundo post com as outras histórias do encontro.

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2 Responses to Uma hora com Sir Ken Robinson – parte I

  1. Taciano disse:

    Achei massa ele lendo Paulo Freire! 😛

  2. […] A aula com Sir Ken Robinson durou apenas uma hora, mas foi cheia de reflexões e histórias que ampliam nosso olhar sobre o tema da educação. Para quem quiser acompanhar a primeira parte do encontro, clique aqui. […]

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