Vamos falar de cidadania?

by • 7 de novembro de 2012 • JornadaComments (1)3314

Ontem (06.11) foi um dia muito especial para nosso projeto por duas razões. Acho que é um bom dia para provocar em nós mesmos algumas reflexões sobre o processo que estamos nos propondo a viver e levar conosco um monte de gente junto.

O primeiro motivo de felicidade: pela primeira vez realizamos um encontro com pessoas além dos nossos amigos, para contar nossas primeiras histórias da jornada até agora. A jornada, recapitulando, é uma volta ao mundo por 12 escolas com modelos inovadores. Parte delas no Brasil, uma na América Latina e uma boa parte nos outros 4 continentes. Nossas visitas já andam de vento em popa. Passamos aproximadamente uma semana em cada uma delas, entrevistando fundadores, professores, profissionais das escolas, assim como alunos e pais. Já visitamos as seguintes iniciativas:

Politeia, Brasil

Schumacher College, na Inglaterra

YIP, na Suécia

Team Academy, Espanha (e ouvimos histórias da Finlândia, onde nasceu essa iniciativa)

North Star, nos Estados Unidos

Green School, Indonésia

Riverside School, Índia

A segunda razão para comemorarmos é que parte do nosso projeto foi financiado coletivamente. Muita gente não sabe ou não entende muito bem o que quer dizer isso. Há várias maneiras de se pensar um projeto e em como arrecadar fundos para ele. O mais tradicional é conseguir um patrocínio, normalmente de uma marca, que “assina” junto o projeto. Outra é conseguir o apoio de alguma entidade sem fins lucrativos, como uma fundação por exemplo. Estas duas eram as mais comuns – mas concorridas e difíceis de se acessar, pois dependiam de se ter “bons contatos”. Isso funcionou assim até 2010. Naquele ano um novo tipo de ferramenta online começou a dar voz, vazão e repercussão a projetos culturais independentes. Ou seja esses projetos começaram a ser divulgados na grande rede. Mas o mais transformador dessa nova ferramenta, a plataforma de crowdfunding, é a participação das pessoas como viabilizadores dos projetos. A palavra crowdfunding significa algo como “financiada pela multidão” (crowd = multidão / funding = financiamento). Eu chamo isso de revolução.

Para o nosso projeto escolhemos o Catarse como plataforma.Vejam o que foi o primeiro ano em números de projetos, usuários, valores financiados e outros dados. Mas é importante que você continue lendo para ver como a plataforma cresceu.

Os números de 2012 são lindos: atualmente existem 71 projetos no ar. Imagine quantas pessoas se mobilizaram e quanto tempo dedicaram para pensar e desenhar estes projetos… São 351 projetos bem sucedidos em menos de 2 anos de existência do site. E mais de R$ 4,5 milhões investidos por cidadãos comuns como eu e você. Os valores das doações são definidos pelo dono do projeto, e cada cidadão doa quanto quiser em troca de alguma contrapartida. No nosso caso, a principal “vale” R$ 50,00 e a pessoa vai receber um livro impresso em troca.

Falei em reflexão sobre nosso projeto e é isso que estou buscando fazer aqui. No momento em que escrevo, 5.851 pessoas curtiram nosso projeto. 494 se mobilizaram a ponto de se cadastrarem no site e realizarem um pagamento virtual. Algumas doaram R$ 10,00, e a essas dedico umas linhas especiais. Um dia eu vi uma doação dessas e na hora disparei um email aos parceiros do projeto, dizendo “adoro pessoa que doam 10 reais”. Ao que o André Gravatá me respondeu “eu também!”. Adoramos estas pessoas porque elas acreditam que com esse gesto estão fazendo alguma coisa. Saem da passividade e viram agentes. Apostam em algo que acreditam. Pelo que está descrito na contrapartida, elas vão receber apenas um adesivo em troca, e sabemos que não é pelo adesivo que nos apoiaram. Mas porque acreditam que estão movimentando alguma coisa. E de fato movimentaram! Obrigada, doadores de R$ 10, 20 e 30 reais!

A última parte de reflexão é sobre como viemos parar aqui, onde estamos. Eu escrevendo nesse blog, vocês lendo, a gente já tendo investigado 7 escolas, num processo colaborativo, dinâmico e sem planejamentos super bem desenhados. A gente foi sendo levado pelo projeto, direcionados por um sonho, do Shima, e depois movidos por um propósito comum. Acredito muito em ideias que estavam no tempo para nascer. Acredito que esse livro é uma delas. Como já disseram os artistas, nós somos apenas os escultores da ideia, que a tiram da pedra e transformam em algo que já estava ali para nascer.

Ao olhar para trás (janeiro de 2012) e para a frente, e já imbuída de aprendizados da jornada, minha última reflexão, à qual convido todos a fazerem parte, é de que o que todos estamos fazendo e precisando fazer são atos de cidadania. Criar este projeto é um deles. Apoiar projetos no Catarse é outro. Escolher a escola mais apropriada para o filho é outra. Encarar de frente o fato e assumir que nós somos a sociedade e nós a movimentamos. Uma pessoa muito amável no evento de ontem falou isso, e eu me identifiquei muito com a provocação. A pergunta dela foi “e amanhã, o que cada um de nós vai fazer com tudo que ouvimos e discutimos aqui hoje?”.

Ser cidadão também é ensinar valores para os filhos. Ensinar quem eles são e quem nós, pais, somos. Ensiná-los a refletir sobre suas decisões. A respeitar o outro não porque alguém disse que respeito é importante, mas porque consegue praticar um ato de empatia. Ensiná-lo a buscar seus propósitos e auto-conhecimento. Não dá mais tempo para não fazer isso. Está na hora de pararmos de apenas reclamar de tudo, do governo, da escola, do lixo na rua, da corrupção, e não dedicarmos uma mínima parte do nosso tempo para ajudar o mundo a mudar.

Chega de ficar esperando, a hora é de arregaçar as mangas e fazer o que dá pra ser feito, por menor que seja, vai afetar a realidade e nunca se sabe onde a coisa pode parar (vide nosso projeto!).

Nas escolas que estamos visitando, fala-se, sim, de valores e de cidadania. Mais posts em breve contarão essas histórias.

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One Response to Vamos falar de cidadania?

  1. Breno disse:

    Que bela e emocionante jornada. Estou acompanhando e torcendo.

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